Sábado, 11/06/11. Olha o onze aí…
07:30 hs – Acordei de um um sono de poucas horas, duas no máximo. Havíamos tocado na noite anterior em São Vicente-SP. Um bom show, mas eu vinha de uma noite de bebedeira na quinta, estava cansado e disperso. A casa onde tocamos tem a tradição de começar seus shows beeeeeem tarde. Tentamos antecipar nossa entrada, mas acabamos só conseguindo começar o show à uma e meia. Qdo o show acabou, um pouco depois das três da matina, eu estava me sentindo ótimo, adrenalinado, pronto para outro. Dormir assim, impossível. Pensei em começar o plano B, que é beber até apagar, mas estava enjoado de alcool. De qualquer forma levei uma garrafa de champanhe para o hotel. Porém, ao chegar ao quarto, guardei a garrafa na geladeira. Resolvi partir para o plano C: um banho quente e, com a coragem reservada aos grandes guerreiros do vazio, enfrentar a fritura nos lençois. Das sete e meia não passaria.
O hotel em São Vicente é o mesmo há anos, há anos não muda, só piora. O banho é péssimo, no meu caso uma ducha elétrica que produzia um fio d’agua morna. Para enfrentar o banho eu precisei fechar as janelas e ficar debaixo daquele mijo, tremendo até o banheiro esquentar com o vapor d’agua. No caso do Mamãe, eu fui saber depois, um chuveiro queimado deixou suas longas madeixas ruivas cheias de espuma numa noite fria, num quarto gelado, quinze minutos antes de sair para o show. Quem mandou ser guitarrista, … hum, perdão, cabeludo? Brincadeira, Mamãe! Tem hotel que ninguém merece.
O jantar também foi nobre. Liguei para a Recepção:
- Recepção? Boa noite! Todo animado.
- Pois não?
- Vocês tem restaurante?
- Temos sim senhor!
Um belo prato de macarrão a bolonhesa, rápido e seguro, se materializou no ar. Mais animado:
- Eu queria fazer um pedido…
- Nós só servimos café da manhã, senhor.
Eram nove horas da noite. Meu prato de macarrão virou no ar e caiu tudo, melecando a cama, o chão, o quarto todo.
- Está um pouco cedo para o café, não? Ou seria um pouco tarde… O que o senhor acha? Muito, muito irritado.
- Eu não sei, senhor…
Inútil prosseguir com a ironia. Meu problema continuava. Depois não sabem porque os chamamos de Decepção.
- Temos aqui na Recepção alguns folhetos de delivery… Todo prestativo.
Fiquei decepcionado com o macarrão missão impossível e decidi escolher outro prato. Crasso erro.
- Será que algum desses deliveris tem arroz com feijão e bife? Pensei no mais trivial, simples e brasileiro.
- Sim, o senhor pode ligar no Au Bon Grudê que eles com certeza tem! Vou passar o número para o senhor! Muito, muito prestativo. Imaginei sua cabeça sendo servida numa bandeja, não fez muito bem ao meu apetite.
Assim aguardei as quentinhas do Au Bon Grudê. Arroz, feijão, bife, batata frita e salada. Não dá pra errar, eu pensei. Logo a campainha tocou, o moto-garçom entregou meu rango. Olha só, mandaram sal e azeite! Tirei a sorte grande, exultei, enquanto abria as quentinhas. Ué, só três? Tá, uma é pra salada, a outra deve ser das fritas, e… ué, não… eles não fizeram isso… enquanto abria nervosamente a terceira quentinha. Não, não… Mas era verdade. Lá estava, submerso no feijão, como que a tomar um refrescante banho de lama, o meu bife. CARACA! Filhos-da-mãe, porque fizeram isso, pra economizar uma quentinha? Tirei o bife pingando de feijão, frio já, e procurei um varal para pendurá-lo para secar. Não havia, claro. Pensei em pedir um ferro de passar, asssim dava mais uma passada naquela muxiba cinza…hum, quem sabe um secador de cabelo, hum… acabei deitando a fina iguaria no prato do jeito que veio ao mundo, um bife in. Incolor, insalobro e indecente. Juntei um pouco da maçaroca que tinha se tornado o arroz-com-feijão, e, pensando na E. Coli ataquei a comida. Ataquei mesmo, porque precisei de coragem para comer a lavagem. Meu, que rango ruim.
Fiquei matutando porque um restaurante julgaria correto misturar o bife com o arroz-e-feijão. Estes dois tudo bem, podem até dividir uma quentinha, o arroz unidos-venceremos forma um bloco sólido numa das metades da quentinha, delimitando uma banheirinha para o feijão ralo. Agora, por um bife em cima disso? Porque, cargas d’agua… então fez-se a luz. Em algumas regiões da Pátriamada a carne numa refeição é conhecida também como mistura. Já que vai misturar tudo mesmo, dentro da barriga, porque não misturar antes, na quentinha? Metade do serviço já vem feito antes de comermos. Eficiência e praticidade, eis o nosso lema! Au Bon Grudê! Gororoba para as massas!
Como eu estava dizendo, sete e meia da manhã de sábado, 11/06/11. Olha o onze aí…. Com os olhos grudando cheios de remela, guardei na mala as roupas do show que tinha deixado secando. Joguei uma água nas minhas olheiras, percebendo que por trás delas ainda existia um rosto humano, ou pelo menos um rascunho. Mais pra borrão, mas enfim… Marchei para o café faltando dez minutos para as oito, o horário combinado de saída. Fui o primeiro a chegar, que bom, poderia comer com calma. Logo apareceram Yves e Fabiano:
- Fê Lemos! o Yves me cumprimentou. – Não tá sabendo?
- Vamos sair às dez, o Mamãe completou.
- Nosso vôo está atrasado. O Lu não te avisou?
- Ah, por isso que meu telefone tocou. Já tinha fechado a porta do quarto…
Decidi tomar o café, sem tomar café, já que estava ali mesmo. Cereal, salada de frutas e uma torrada, voltaria pro meu quarto e arrancaria mais uma hora e meia de sono.
10:05 hs – Sentindo aquela frustração de acordar justo quando o sono está começando a ficar bom, segui as luzes de emergência até o elevador. No lobby me protegi da terrível luz solar como um vampiro (uma dica) e sem olhar para o dia me aboletei no banco da van. Encostei a cabeça na janela, baixei meu chapéu sobre os olhos, o chapéu do sono mágico, talvez o melhor uso que um chapéu pode ter. Apaguei antes da van virar duas esquinas. Acordei no aeroporto de Cumbica, duas horas depois. Bendito sono, esse nem eu acreditei. Tirei da cartola. Hum, do chapéu barato da C&A.
12:13 hs – O valoroso Binho nos recebeu:
- O vôo está atrasado, não tem previsão. Descolei a sala VIP para vocês.
A tropa insone marchou com seus cartões de embarque sem horário definido para a sala VIP do cartão Diners. Muito gentis, já que nenhum de nós tem o bendito cartão. Quando eu era criança o Diners era o único cartão que existia. Hoje é o único que eu não tenho.
Na sala VIP, vários passageiros com cara de tédio e longas horas de espera. Uma mulher dormia numa poltrona, algumas crianças olhavam para o pátio vendo o movimento dos aviões através dos vidros a prova de som. As baias de internet estavam todas cheias. Consegui uma poltrona e instalei meu laptop na mesinha em frente. A banda se espalhou, cada um procurando a melhor maneira de encarar uma espera que não tinha hora para acabar. O aeroporto estava lotado por causa dos atrasos que haviam acontecido em função das cinzas do vulcão chileno. Vôos com até dois dias de atraso estavam sendo remanejados. Mas eu estava tranquilo. O show era meia-noite, com certeza chegaríamos à tempo.
Resolvi esvaziar minha caixa de mensagens. Comecei pelos emails, revisando o que estava no Trash e apagando tudo que era inútil. Depois de responder todas as mensagens, inclusive as pendentes a vários meses, passei para o MySpace. Fazia um tempo que não entrava ali, havia um monte de mensagens também me esperando. Fui de uma a uma, lendo e respondendo tudo. Li até as letras que o Issacar me mandou… Quando não temos o que fazer, o tempo aparece. Sujeito engraçado, esse tal de tempo. Estamos sempre correndo atrás dele, perdendo ele, e ele só aparece quando a gente não precisa?
13:33 hs – A fome bateu. Larguei minhas coisas ali mesmo e fui atrás de uma pizza no Pizza Hut. Adoro a pizza de pepperoni. Tem alguns restaurantes onde eu peço sempre o mesmo prato, desde sempre e provavelmente até a eternidade. No America, nem olho o cardápio. É o Texas, desde a primeira vez que entrei na espelunca, nos idos de 86/87, quando inaugurou a primeira casa de rede, na Av. Nove de julho. O teto era curvo e tinha nuvens pintadas, imitando o céu. Eu achava tão moderno. Não me lembro de ter pedido um outro prato, nenhuma vez, em todos estes anos. Houve uma vez que eu comi dois seguidos. Inteiros. Hum, eu comeria um agora…
No Pizza Hut é a mesma coisa. Sempre a de pepperoni. No McDonalds, Big Mac. Toda a vez que tentei variar me arrependi. Acho que não vario porque como nesses lugares raramente. Deixo para experimentar pratos novos em restaurantes diferentes, ou nos tradicionais que eu frequento. Nestes não gosto de pedir o mesmo prato, vou explorando o menu. Mas confesso que existem pratos que nunca provei, como coelho, scargot, rã, mesmo carneiro, que comi apenas uma ou duas vezes. Acho que nunca serei um gourmet.
14:41 hs – De volta à sala. O Yves está saindo para comprar cerveja. Neste momento a nossa sala está desprovida de bebidas alcólicas.
- Pera aí, eu tenho algo que você vai gostar!
Vou até o balcão e peço a atendente a minha garrafa, que eu tinha deixado gelando desde a chegada ao nosso pit stop VIP. Ou vocês acharam que eu tinha esquecido a garrafa na geladeira em São Vicente?
- Voilà! – e mostro ao incrédulo Yves uma garrafa de Veuve Clicquot gelada, suando, intacta.
- Aí Fê Lemos! – meus amigos exultam, por um breve momento sou o rei da sala VIP. Capto olhares invejosos de passageiros estressados. Copos de plástico cheios, a turma debanda novamente e eu retorno às redes sociais. No Facebook confiro a lista crescente de pesoas que querem ser meus amigos. Porque pessoas que nunca vi na vida querem ser meus amigos? Porque eu toco numa banda, deve ser. Não deve ser por causa dos meus longos cabelos e da barriga tanquinho. Eu gosto dos Rolling Stones mas nem por isso vou tentar ser amigo do Keith Richards. Eu vou ler seu livro e ouvir sua música. Talvez se um dia vier à conhecê-lo… O que é conhecer uma pessoa? Bater um papo de três frases e tirar uma foto com ela? Eu já fiz isso com a Rita Lee, mas não penso em pedir para ela me aceitar no FB dela. Ah, a ilusão que o mundo virtual criou, da conectividade universal. Estamos todos conectados e cada vez mais solitários.
Agora, no MySpace é diferente, ele existe para isso, para a gente se associar, estabelecer um vínculo com os artistas que a gente gosta. Não necessariamente conversar com eles, se não eles não fariam mais nada na vida. Mas para saber as novidades, lançamentos, datas de shows. Ou simplesmente pertencer ao clube. Eu pertenço ao clube dos Stooges, do Joy Division, do E-Z Rollers, do Nick Drake. Da Amy. Raramente entro ali para ver o que está acontecendo, mas isso é uma decisão minha. O que fazemos com nossas redes sociais são nossas assinaturas no mundo virtual, são nossas personalidades digitais. Nossos avatares. Estamos apenas engatinhando no século XXI. Falando nisso, seria legal voltar à postar as datas de shows no meu MySpace! Quem sabe começar a postar mais fotos também. Editar os vídeos seria incrível, tenho muito material inédito. Se o senhor Tempo der as caras. Ainda não foi dessa vez.
Até o MySpace morrer e ser sustituido por outra rede… E então fui olhar o Twitter. O Twitter é divertido. A fofoca eletrônica. Muito eficiente. Rapidamente milhares de pessoas são invadidas por qualquer bobagem que vc publique. Antigamente as pessoas precisavam se lembrar dos amigos. Agora eles pulam na sua frente, agitando bandeiras de conteúdo. Muito conteúdo.
16:06 hs – A garrafa de champs está vazia, no chão ao meu lado. O meu saco está no sentido contrário. Pedrão e Binho estão conversando num canto.
- São quatro horas de ônibus do aeroporto de Cuiabá até Nova Mutum – diz o Binho.
- Se a gente embarcar até às cinco, dá tempo – pondera o Pedrão.
- Vai ficar em cima, mas o contratante falou que podemos atrasar o show e começar lá pelas duas…
- Confirmou o embarque? – eu pergunto.
- Parece que sim. – responde Binho.
- Saindo cinco e meia, uma hora e meia de vôo, mais quatro de bumba… ainda dá tempo de tomar um banho! – eu sorrio amarelo.
Os dois me olham quietos. A corda está se rompendo.
17:14 hs – Finalmente vamos embarcar. Existe esperança, afinal. Mas, lá no fundo, a velha dúvida: isso é arte? Ou é apenas um negócio? Temos aquela noção que um artista quando se apresenta ao vivo, está ali sob a influência e a regência da musa. Ele não é mais apenas um ser humano, ele é um veículo para a arte. Agora como ser artista depois de tanto perrengue? Enfim, as dúvidas desaparecem no calor do palco e na pressão do som. Marchamos como gado manso pelos corredores apinhados de nossos aeroportos chinfrins até o charuto voador.
18:01 hs – Estamos dentro do avião, mas as portas continuam abertas. Existe um zum-zum-zum no ar, de pessoas irritadas com as horas de espera em salas de embarque desconfortáveis, ansiosas para verem o avião decolar. Estou sentado na poltrona 2A, que, junto com a 2F, são os meus lugares marcados nos vôo do Capital Inicial. Bem próximo à porta. Para passar o tempo saco meu iPod e começo a jogar Freecell, o melhor jogo de paciência que existe. Mas não estou me sentindo muito paciente. Então abro o aplicativo GlowColoring. É um programa onde pintamos usando o dedo. Tanta tecnologia para voltar à fazer o que fazíamos quando crianças. Não suja as mãos de tinta. É virtualmente igual. O que pode ser radicalmente diferente. O bom era lambuzar as mãos de tinta… Mas o programinha é legal, e logo estava fazendo meus rabiscos de telefone, multicoloridos.
18:29 hs – O burburinho virou um burburão. Vários passageiros já sairam de suas cadeiras e estão em pé no corredor. Pessoas reclamam em voz alta, falam mal da TAM. Começa uma reclamação generalisada de fome. As comissárias explicam que não estão autorizadas a servir lanches em terra. Pedrão e Binho vão diversas vezes até a porta, para saber o motivo do atraso, descobrem que é algum problema com a tripulação. Parece que está faltando um comissário. Olho para aquelas pessoas ansiosas, estressadas, alteradas, sofrendo. Contemplo meu primeiro desenho. Estou fechado num mundo paralelo, pensando em traços, formas e cores. O leve desespero me leva dali.
Hum, este desenho me lembra uma floresta, os raios do sol passando por entre a espessa folhagem, e… instantaneamente sou transportado para uma mata qualquer, então estou num rio de planalto nos arredores de Brasília, água cristalina e gelada correndo entre pedras, a mata ciliar bloqueando o mundo exterior, o rio um universo à parte, vivo de sons e cheiros e movimentos e ui, topadas, explorando, procurando um poço quando…
18:37 hs – Começa a rebelião. Um passageiro vem do fundo do avião, falando em voz alta, cego de ódio e frustração. Vem empurrando todos que estão em pé no corredor.
- Eu quero descer dessa merda! – ele grita, quando chega no alley, para os comissários ali em pé. Ops, o primeiro palavrão. Olho de rabo de olho. Começo meu segundo desenho.
- Senhor, não podemos autorizá-lo descer, não é permitido passageiros esperarem na pista e …
- Não quero nem saber! – o sujeito urra indignado. Estou esperando a seis horas, já perdi minha conexão, … a TAM vai pagar meu prejuízo? – ele esbraveja para comissárias constrangidas. Por um instante tenho a impressão que está saindo fumaça da cabeça do sujeito.
- Senhor, temos a informação que o comissário faltante já está a caminho… – uma das comissárias fala sem muita convicção.
O sujeito olha pela porta para fora do avião. Estamos no pátio, longe do prédio do aeroporto. Funcionários e comissários olham para o indignado com severidade. Ele se cala e volta para o fundo do avião.
18:46 hs – A reclamação de fome retorna com mais força. Alguns passageiros começam a falar em voz alta.
- Libera logo essa comida! – Uma voz grita do fundo do avião.
- Estamos aqui dentro à duas horas, já tô passando mal! – uma voz de mulher um pouco atrás de mim. Uma mulher gorda, se abanando com um exemplar de Caras.
- É, cadê as balinhas! – uma voz do fundo, e risadas generalisadas. Olho as comissárias. Estão aflitas. Uma pega o interfone, conversa com alguém da tripulação.
Logo, uma voz vem pelo sistema de som. Uma voz feminina.
- Senhores passageiros, gostaria de informar que o comandante autorizou o serviço de bordo. Por favor, retornem aos seus assentos para podermos iniciá-lo.
Em alguns minutos é servido um sanduba frio e bebidas. O pasto acalma o rebanho.
18:58 hs – Meu segundo desenho está pronto. Fico me perguntando como sei quando um desenho está pronto. São todos apenas conjuntos de traços, riscos, formas e cores. Quando parar é a principal dúvida. Sei lá, simplesmente sei. Acho que quando o conjunto sugere uma certa harmonia. Quando tenho a impressão que um pixel a mais é desnecessário, e dois a mais arruinariam o quadro. O quadro. Como se eu estivesse fazendo Arte Séria. Arte Culta. Pintando a Capela Sistina. Arte digna de Artistas. São apenas rabiscos de telefone. Porque você dedica tanto tempo à rabiscos? Porque não aprende uma profissão séria? Se liga, artista.
Hum, parece que houve uma explosão de natureza ainda desconhecida no coração da floresta. Uma onda de radiação se espalha na velocidade da luz pelo ecossistema, gerando uma mudança ainda imperceptível aos desavisados no código genético de todas as criaturas vivas do pedaço. Esta mudança, mutações no padrão do DNA-Implicante, induzirá uma lenta e gradual alteração em todo o povo da selva, culminando com eles finalmente deixarem de votar nos Sarneys, Barbalhos e assemelhados. Puta viagem.
19:07 hs – Pedrão e Binho estão em ligações constantes com o contratante em Nova Mutum e com nossos agentes. Nosso horário previsto de chegada, se o avião decolar nos próximos minutos, passou para as duas da manhã. No limite. Vamos direto para o recinto, sem passar pelo hotel. Mas, e a montagem? Pedro e Binho trocam olhares.
- O palco está pronto, com o telão e as luzes montadas. Os cases já estão no palco também. É chegar e montar o nosso equipamento. Em meia hora, quarenta minutos, montamos tudo e fazemos o line-check. – pondera Binho.
- Não vai dar pra passar o som. – eu digo.
- A empresa de som já fez outros shows com a gente esse ano. Os nossos ajustes ficaram salvos na memória da mesa. – diz o Pedrão.
- É… bem, já fizemos shows sem passar o som antes. – eu digo, imaginando a zona aural que vai se instalar nos meus ouvidos e, sabe-se lá como, eventualmente se transformar num show de rock. Eventualmente.
- As primeiras músicas vão pro saco… – eu penso em voz alta. Baixo meus olhos, sinto minha energia entrar perigosamente na reserva. Começo o meu terceiro desenho.
- A cidade está lotada esperando a gente. Foi o dia de maior venda de ingressos. É o sábado, o dia mais importante da Feira. O contratante não pode nem ouvir falar em cancelar o …
O Pedrão é interrompido pela voz do comandante, no sistema de som.
- Senhores passageiros, o comissário que faltava chegou… – Uma comoção se espalha por todo avião.
- Demorou, gostosão! – alguém grita lá do fundo. Risadas, assovios. O comandante continua:
- Mas agora eu preciso informá-los que por causa deste atraso nós ultrapassamos a carga horária prevista para o co-piloto, então precisaremos aguardar a troca deste tripulante também…
- Tá de brincadeira! – um senhor careca de bigode exclama de uma poltrona próxima. O avião inteiro vira um grande buxixo de reclamações, risadas nervosas e palavrões.
- Essa TAM é uma merda! – uma voz grita.
- Decola logo essa porra! – mais uma voz cheia de raiva.
O comandante, numa cabal demonstração de sensibilidade, fala a coisa errada, no lugar errado e na hora errada:
- Senhores passageiros, eu gostaria de pedir aos senhores que se comportassem de acordo com as normas da decência e da boa educação, senão serei obrigado a chamar a polícia…
Pra que. A baixaria se generalisou. Vai se foder, filho-da-puta, merda de TAM, todo mundo gritando.
Começa um empurra-empurra na metade do avião. As pessoas em pé são espremidas para cima das poltronas. Um casal com um filho pequeno vem vindo em direção à porta, o marido esbravejando:
- Chega! CHEGA! Eu quero descer! Que palhaçada é essa? Minha mulher tá grávida!
O cara está ensopado de suor, com o rosto vermelho, as veias saltando no pescoço. Atrás dele vem um encabulado menino de uns seis anos, e sua esposa grávida, com o rosto pálido.
- Senhor… – uma comissária tenta acalmá-lo.
- Que senhor que nada! CHEGA! CHEGA! Não fico mais dentro dessa merda nem um segundo! Minha mulher tá grávida, entendeu? GRÁVIDA! E se ela perder o filho, o que que a TAM vai fazer? Hem? Vai mandar eu escrever uma Carta para o Presidente? HEM? HEM? – ele grita, possesso, quase pulando no pescoço da comissária.
- O senhor não pode des… – ela tenta impedi-lo, mas ele se interpõe entre ela e a porta, puxa seu filho e mulher e rapidamente descem as escadas.
19:24 hs – Estou presenciando um motim no século XXI. Surreal. Um outro passageiro chega até a frente e começa um discurso, conclamando todos os passageiros a descerem e entrarem juntos com uma reclamação na ANAC. Parece um lider estudantil falando, chamando os companheiros à luta:
- Se apenas poucos descerem, não conseguiremos nosso objetivo, e a TAM vai escapar impune dessa palhaçada! – ele gritava pra quem queria ouvir. Alguns passageiros se levantaram e seguiram o seu exemplo. Fez-se a merda. Não podíamos decolar antes de os passageiros que haviam descido terem suas malas retiradas do avião. O que exigiria a entrada em ação dos funcionários em terra, que carregam e descarregam o avião, a checagem do nome de cada mala… impossível.
19:33 hs – Depois de dez minutos intermináveis, a voz surge do além:
- Senhores passageiros, aqui é o comandante novamente. Gostaria de informar-lhes que este vôo está cancelado. Por favor queiram desembarcar e entrar em contato com nossa equipe em terra para as providências de praxe… – CANCELADO! HA HA HA seus otários! –
Só faltou isso.
20:01 hs – Alguns de nós nos sentamos no nosso bar mais ou menos secreto em Cumbica, esperando novas instruções. Vamos fazer o show? Quando? Cancela e devolve o dinheiro? As dúvidas são muitas, mas não sou eu que decido o meu destino nesses casos. Sou instruído por pessoas pagas para isso. Pedimos um chopp. Contemplo meu terceiro desenho.
Hum, parece as fotos que eu via nas revistas Astronomy do Flávio. Aglomerados. Berços de estrelas. Sóis novos entrando em ignição, começando a fusão nuclear que eventualmente transformará o elemento mais comum do universo, o Hidrogênio, em elementos mais pesados, como outros gases, Ferro, Carbono, e o resto. As estrelas são a semente da vida. Mas para os Jedis do Rock, praticamente treze horas presos à um universo paralelo de trânsito, espera, atrasos e expectativas frustradas, acabou o gás. Os goles calados de chopp da turma indicam que dessa vez o lado escuro da Força venceu.
20:19 hs – O Binho aparece:
- Galera, ficou assim. Vamos fazer o show amanhã. É a última noite da Feira. Ia tocar uma atração regional que foi mudada para outro palco. O ingresso de hoje fica valendo para amanhã. Fazer outro dia fica impraticável. O contratante teria que montar um novo palco e mobilizar a mesma estrutura novamente, a gente ia ter que arrumar um buraco na agenda, enfim, não rola.
- E então… – sem levantar meus olhos da tulipa.
- Vocês tem que estar aqui amanhã às nove e meia da manhã. Boa noite, senhores!
20:29 hs – Acabo de digitar a senha do meu cartão de crédito. A perspectiva de uma noite de sono em casa é boa. Dar um beijo no meu filho, quem sabe eu ainda pego ele acordado. Posso vir de carro para o aeroporto e deixá-lo no estacionamento. Não tocarei mais sem banho, descanso e jantar. O show será num horário mais humano. Um grande problema será resolvido rapidamente. Há malas que vão pra Belém. Há males que vem para o bem. Sorrindo sem saber muito bem porque me dirijo ao ponto de táxi.
Domingo, 12/06/11 – Aniversário da Dibi – 21 anos! Parabéns, guria!
08:36 hs – Meu guri ainda está dormindo. Minha guria deve estar indo dormir. Um banho para encarar as várias horas de viagem à frente, uma torrada com suco de laranja, um último beijo no pequeno, em vinte minutos estou guiando para Cumbica. Trânsito livre, ar limpo. São Paulo domingo de manhã é um espetáculo raro para mim. Tudo fica como devia estar. Às nove e meia me encontro com a equipe, pego meu cartão de embarque e me dirijo rapidamente para a sala do dito cujo, ainda à tempo de fazer uma quick massage.
10:44 hs – O vôo decola com um pequeno atraso, sem nenhuma confusão, nenhuma superlotação, nenhuma aporrinhação. Não deve ser o mesmo país… Durmo praticamente o vôo todo, nem aprecio o suntuoso serviço de bordo.
12:21 hs – Pousamos em Cuiabá. Não está tão quente assim, afinal é inverno. Em uma rápida reunião decidimos almoçar no primeiro restaurante que encontrarmos saindo da cidade. Não sabemos o que vem pela frente, é melhor se garantir logo.
13:03 hs – A Nau dos Insensatos pára em uma churrascaria nos arredores de Cuiabá. O ambiente não permite sutilezas, mas a carne é excelente. Afinal, já que acabaram com as florestas daqui pra plantar boi, é bom que sejam bons mesmos. Os bois, claro, porque os homens bons se foram há tempos.
14:12 hs – Após muita picanha, maminha e fraldinha, e muitas cervejas também, disputo com a graxa um dos últimos exemplares de preciosos Chicabons. Nossos fiéis escudeiros me permitem a posse de um exemplar desta fina iguaria gelada, e brigam entre si para ver quem vai ficar com o Cornetto.
De volta a bumba, não é a nossa Nave-Mãe, mas um veículo tipo quase-leito, alugado de uma empresa local. Tipo, os bancos quase deitam, quase tem travesseiro e cobertor, você quase viaja confortável e quase quer se matar depois de horas procurando inutilmente uma posição para dormir. Pelo menos a estrada não está uma lástima, até que rodamos macio. O problema são as carretas de soja, centenas, durante todo o percurso. Impossível andar a mais de sessenta. Ultrapassagens o tempo inteiro. Tartarugas de vinte toneladas ultrapassando cágados de trinta. E as lesmas lerdas atrás, sonhando com uma cama fixa e um travesseiro macio.
17:47 hs – As pessoas olham para a bumba enquanto rodamos pela avenida principal de Nova Mutum, procurando o nosso hotel. Todos devem saber que somos nós que estamos chegando, o show adiado foi uma grande notícia local. Nova Mutum é baixa e espalhada, como todas as cidades do Centro-Oeste que surgiram ou cresceram nos últimos vinte anos, produtos do agro-negócio brasileiro. Poeira vermelha e pick-ups grandes.
17:59 hs – Finalmente chegamos. Uma mãe e sua filha nos aguardavam desde ontem. Queria lembrar o nome delas, mas agora, meses depois, apenas lembro que havia uma mãe e sua filha. A menina me deu de presente uma mini-bateria! Eu soube que, da banda, sou o preferido dela, e que ela começou a estudar bateria. Conversamos um pouco, dei dicas sobre praticar com a borracha de estudo antes de comprar uma bateria. Depois das fotos e de receber meu presente, agradeci o carinho das duas gerações ali representadas. É a maior recompensa que podemos encontrar nestes lugares perdidos deste imenso país. Eu sei também que elas nunca se esquecerão daquele momento. Eu, talvez.
18:18 hs – Da varanda do meu quarto olho para Oeste. Os últimos raios de sol iluminam um quarto amplo, novo e mal-decorado. Pelo menos as janelas tem cortinas. Fecho-as, deito em lençois limpos, o ar-condicionado em 23 ºC, procuro algum futebol na tv. Minha cabeça está vazia, meu coração intranquilo e as razões para essa epopéia, embora claras, me parecem cada vez mais esgarçadas. O paradoxo, o amor à estrada versus a crescente vontade de quietude. Mas será quietude? Ou será uma outra estrada? Não tem nenhum jogo passando. Vendo algum programa sobre animais da savana africana tento encontrar algum descanso antes de jantar.
Segunda-feira, 13/06/11
00:30 hs – Mais um palco, mais uma platéia, mais um momento de exorcizar os demônios da dúvida e da incerteza com a precisão e o peso do rock’n'roll. Quarenta e uma horas depois, Nova Mutum não será mais a mesma. E ninguém será mais tão jovem assim.




