Saímos tarde de São Paulo. Estávamos alegres. Tínhamos terminado a 12a. semana de ensaios, esta última semana focada em tocarmos o novo repertório e resolvermos os últimos problemas e dúvidas de arranjos para a gravação iminente.
Este longo período de ensaio, o mais longo desde o nosso retorno em 1998, foi decisivo para conseguirmos realizar o objetivo mais importante, na minha opinião, que uma banda pode ter antes de entrar num estúdio: compreender cada canção, ter a noção de como cada música é antes de registrá-la para sempre num disco. Esta noção te dá a segurança necessária para interpretar a canção. Interpretar quer dizer tocar com sentimento, com conhecimento e com segurança. Significa tocar de coração, ao invés de tocar com a preocupação de não errar. Erros acontecem, num estúdio você pode repetir a música quantas vezes quiser, até conseguir o melhor resultado. Mas o melhor é quando você consegue gravar a música em poucos takes, porque ela já existe dentro de você, todas as partes e passagens foram treinadas e aprendidas, e o músico sabe o que vai acontecer lá na frente, ele tem o ‘mapa’ da canção. Isso nós conseguimos.
Chegamos em Patos de Minas na hora do almoço. Fomos comer comida mineira no mesmo restaurante das outras vezes, cujo nome esqueci. Tentei dormir um pouco, mas logo o Pedrão, nosso diretor técnico, ou stage manager se preferirem, me ligou. O Léo, meu roadie, não pode ir neste show por motivos pessoais. Concordei com o Pedrão em dar uma passada no local do show durante a montagem, para checar se estava tudo ok, afinal a batera ia ser montada por quem não está habituado a fazê-lo.
O local do show era estranho, havia um monte de divisórias pretas no salão e nas arquibancadas. Havia diferentes tipos de ingressos que davam direitos a diferentes regalias, e o povo não podia se misturar. Tipo o pessoal que pagou menos poderia acabar pegando a bebida que era grátis pro pessoal que pagou mais, coisas assim. O palco era pequeno e havia uma passarela, avançando para dentro do salão e praticamente dividindo o espaço em duas metades. Achei tudo estranho, muitas estruturas de ferro com panos e telões pendurados. O salão dividido me lembrou uma série de becos, as divisórias eram altas e parecia que atrapalhariam a visão do palco. Enfim, era o esquema da festa, e sempre nos adaptamos às peculiaridades de cada show.
Ajustei a bateria, toquei meus sambinhas e vazei. Na volta para o hotel encontrei o Yves tomando um chopp numa choperia que havíamos conhecido na outra vez que estivemos em Patos. Resolvi acompanhá-lo na dura tarefa de esvaziar copos e jogar conversa fora. Ele estava com uns caras de Nova Serrana, conversamos sobre a vida na estrada, a fabricação de sapatos genéricos da Nike e histórias antigas do CI.
A tarde logo virou noite, jantamos por ali mesmo e voltamos para o hotel. Consegui descansar um pouco mais, o horário do início do show acabou sendo adiado das 23:00 hs para a meia noite. Mas fomos começar a tocar perto de uma da manhã. O palco era alto, eu mal conseguia ver as pessoas. As divisórias não ajudavam. O que foi uma pena. Era a 10a. Festa do Pijama e estava todo mundo de … pijamas! O Dinho não cansava de elogiar o visual mais legal que ele já tinha visto do palco! Eu não conseguia ver nada…
Me preocupei em tocar direito. Desisti de olhar para a platéia, não via nada mesmo, segui com o show. Me sentia um pouco distante de tudo, não conseguia encontrar aquele sentimento que vem da troca de energia com o público. Paciência, já fiz alguns shows assim e sabia que a alternativa era me concentrar na música e na sua execução.
Então começamos “Que País é Esse?” Lembrei que na choperia um cara me perguntou se a gente ia tocar “a versão rápida de QPéE”. Achei legal ele chamar a nossa versão de “versão rápida”! É a mais próxima da versão original do Æ. A bateria com o bumbo reto, quatro semínimas por compasso. Respondi que sim, claro, e fiquei feliz. Uma música tão antiga, praticamente trinta anos de idade, tristemente atual, ainda chama a atenção, ainda é lembrada e pedida.
No final do solo do Yves, eu estava me preparando para começar o meu solo. Não é propriamente um solo, mas um improviso que começou como uma brincadeira há alguns meses atrás e acabou sendo incorporado ao show. Estava olhando para baixo, na direção da caixa da bateria, quando ouvi um barulho, e pensei – “O microfone do Dinho caiu no chão.” Olhei para a frente, vi o microfone no chão, na beirada da passarela, e o Luciano, nosso segurança, passar correndo. Não vi o Dinho. Pensei – “Ele desceu para a galera.” Ele costuma fazer isso, em shows menores. Então tudo aconteceu muito rápido. Vi o Yves parar de tocar, com uma expressão horrível. O Flávio, que tinha ido até a borda, olhou para baixo, parou de tocar, se virou na minha direção e fez um sinal com a mão. Então eu sabia.
De repente as pessoas na platéia pareciam como num sonho. Elas estavam lá mas não estavam realmente lá. Gritavam e gesticulavam, mas eu passei como que em câmera lenta. Ouvi o Pedrão gritar no microfone do Yves – “Alguém chama o resgate!’ Cheguei na beirada da maldita passarela e olhei para baixo. Vi o meu amigo deitado no chão. Suas pernas estavam esticadas e cruzadas, já na posição para ser transportado de maca. Não consegui ver seu rosto, estava encoberto por pessoas debruçadas sobre ele. Os seguranças afastavam algumas pessoas que insistiam em chegar perto. Rapidamente conseguiram afastar os curiosos. Quase no mesmo momento o pessoal do resgate chegou, trazendo a maca, gritando para as pessoas sairem do caminho. Meu amigo estava machucado e não havia nada que eu podia fazer. Me virei e voltei para o palco. No caminho pela passarela mais gritos e gestos, lembro de um rosto gritando, parece que alguém pediu alguma coisa, uma baqueta… A sensação de estar num lugar fora do tempo e do espaço. No palco, a Lílian, nossa produtora, estava petrificada, branca. Ela me mandou para o camarim.
Lá esperamos, putos, indignados, arrasados. A queda foi de muito alto. O Yves viu tudo acontecer, ele estava solando e o Dinho estava na frente dele, curtindo. Tinha ultrapassado a linha de segurança, sem perceber. Deu um passo para trás e o chão desapareceu.
Rapidamente fomos para o hotel. Chegaram as primeiras notícias. Ele estava acordado, falando. Conseguia se mexer. Graças à Deus. Aparentemente não tinha quebrado nada. Ia fazer os primeiros exames. Então esperamos. Acatamos o pedido da produção e ficamos ali, para evitar tumultos desnecessários no hospital.
Os primeiros exames mostraram aquilo que foi publicado na mídia. Agora só nos resta aguardar e rezar pelo nosso amigo. Força sempre, mano véio.
Este é o comunicado oficial, postado no nosso site:
Na noite de sábado, 31, Dinho Ouro Preto, vocalista da banda Capital Inicial, caiu de uma passarela, parte integrante do palco onde a banda se apresentava, durante show em Patos de Minas- MG.
Após os primeiros cuidados em hospital local, que diagnosticaram um leve traumatismo craniano, o cantor, lúcido e com estado de saúde estável, foi transferido para São Paulo. Nova bateria de exames realizada confirmou o diagnóstico inicial. Dinho passa bem, permanece estável e sob os cuidados da equipe do Neurologista Milberto Scaff no hospital Sírio Libanês, em São Paulo.
A família e a banda agradecem o apoio dos fãs e pedem o tempo e espaço necessários para que Dinho possa se recuperar e voltar aos palcos o mais rápido possível.
Família Capital Inicial