O acidente do Dinho

3 03UTC Novembro 03UTC 2009 por felemos

Saímos tarde de São Paulo. Estávamos alegres. Tínhamos terminado a 12a. semana de ensaios,  esta última semana focada em tocarmos o novo repertório e resolvermos os últimos problemas e dúvidas de arranjos para a gravação iminente.

 

Este longo período de ensaio, o mais longo desde o nosso retorno em 1998, foi decisivo para conseguirmos realizar o objetivo mais importante, na minha opinião, que uma banda pode ter antes de entrar num estúdio: compreender cada canção, ter a noção de como cada música é antes de registrá-la para sempre num disco. Esta noção te dá a segurança necessária para interpretar a canção. Interpretar quer dizer tocar com sentimento, com conhecimento e com segurança. Significa tocar de coração, ao invés de tocar com a preocupação de não errar. Erros acontecem, num estúdio você pode repetir a música quantas vezes quiser, até conseguir o melhor resultado. Mas o melhor é quando você consegue gravar a música em poucos takes, porque ela já existe dentro de você, todas as partes e passagens foram treinadas e aprendidas, e o músico sabe o que vai acontecer lá na frente, ele tem  o ‘mapa’ da canção. Isso nós conseguimos.

 

Chegamos em Patos de Minas na hora do almoço. Fomos comer comida mineira no mesmo restaurante das outras vezes, cujo nome esqueci. Tentei dormir um pouco, mas logo o Pedrão, nosso diretor técnico, ou stage manager se preferirem, me ligou. O Léo, meu roadie, não pode ir neste show por motivos pessoais. Concordei com o Pedrão em dar uma passada no local do show durante a montagem, para checar se estava tudo ok, afinal a batera ia ser montada por quem não está habituado a fazê-lo.

 

O local do show era estranho, havia um monte de divisórias pretas no salão e nas arquibancadas. Havia diferentes tipos de ingressos que davam direitos a diferentes regalias, e o povo não podia se misturar. Tipo o pessoal que pagou menos poderia acabar pegando a bebida que era grátis pro pessoal que pagou mais, coisas assim. O palco era pequeno e havia uma passarela, avançando para dentro do salão e praticamente dividindo o espaço em duas metades. Achei tudo estranho, muitas estruturas de ferro com panos e telões pendurados. O salão dividido me lembrou uma série de becos, as divisórias eram altas e parecia que atrapalhariam a visão do palco. Enfim, era o esquema da festa, e sempre nos adaptamos às peculiaridades de cada show.

 

Ajustei a bateria, toquei meus sambinhas e vazei. Na volta para o hotel encontrei o Yves tomando um chopp numa choperia que havíamos conhecido na outra vez que estivemos em Patos. Resolvi acompanhá-lo na dura tarefa de esvaziar copos e jogar conversa fora. Ele estava com uns caras de Nova Serrana,  conversamos sobre a vida na estrada, a fabricação de sapatos genéricos da Nike e histórias antigas do CI.

 

A tarde logo virou noite, jantamos por ali mesmo e voltamos para o hotel. Consegui descansar um pouco mais, o horário do início do show acabou sendo adiado das 23:00 hs para a meia noite. Mas fomos começar a tocar perto de uma da manhã. O palco era alto, eu mal conseguia ver as pessoas. As divisórias não ajudavam. O que foi uma pena. Era a 10a. Festa do Pijama e estava todo mundo de … pijamas! O Dinho não cansava de elogiar o visual mais legal que ele já tinha visto do palco! Eu não conseguia ver nada…

 

Me preocupei em tocar direito. Desisti de olhar para a platéia, não via nada mesmo,  segui com o show. Me sentia um pouco distante de tudo, não conseguia encontrar aquele sentimento que vem da troca de energia com o público. Paciência, já fiz alguns shows assim e sabia que a alternativa era me concentrar na música e na sua execução.

 

Então começamos “Que País é Esse?” Lembrei que na choperia um cara me perguntou se a gente ia tocar “a versão rápida de QPéE”. Achei legal ele chamar a nossa versão de “versão rápida”! É a mais próxima da versão original do Æ. A bateria com o bumbo reto, quatro semínimas por compasso. Respondi que sim, claro, e fiquei feliz. Uma música tão antiga, praticamente trinta anos de idade, tristemente atual, ainda chama a atenção, ainda é lembrada e pedida.

 

No final do solo do Yves, eu estava me preparando para começar o meu solo. Não é propriamente um solo, mas um improviso que começou como uma brincadeira há alguns meses atrás e acabou sendo incorporado ao show. Estava olhando para baixo, na direção da caixa da bateria, quando ouvi um barulho, e pensei – “O microfone do Dinho caiu no chão.” Olhei para a frente, vi o microfone no chão, na beirada da passarela, e o Luciano, nosso segurança, passar correndo. Não vi o Dinho. Pensei – “Ele desceu para a galera.” Ele costuma fazer isso, em shows menores. Então tudo aconteceu muito rápido. Vi o Yves parar de tocar, com uma expressão horrível. O Flávio, que tinha ido até a borda, olhou para baixo, parou de tocar, se virou na minha direção e fez um sinal com a mão. Então eu sabia.

 

De repente as pessoas na platéia pareciam como num sonho. Elas estavam lá mas não estavam realmente lá. Gritavam e gesticulavam, mas eu passei como que em câmera lenta. Ouvi o Pedrão gritar no microfone do Yves – “Alguém chama o resgate!’ Cheguei na beirada da maldita passarela e olhei para baixo. Vi o meu amigo deitado no chão. Suas pernas estavam esticadas e cruzadas, já na posição para ser transportado de maca. Não consegui ver seu rosto, estava encoberto por pessoas debruçadas sobre ele. Os seguranças afastavam algumas pessoas que insistiam em chegar perto. Rapidamente conseguiram afastar os curiosos. Quase no mesmo momento o pessoal do resgate chegou, trazendo a maca, gritando para as pessoas sairem do caminho. Meu amigo estava machucado e não havia nada que eu podia fazer. Me virei e voltei para o palco. No caminho pela passarela mais gritos e gestos, lembro de um rosto gritando, parece que alguém pediu alguma coisa, uma baqueta… A sensação de estar num lugar fora do tempo e do espaço. No palco, a Lílian, nossa produtora, estava petrificada, branca. Ela me mandou para o camarim.

 

Lá esperamos, putos, indignados, arrasados. A queda foi de muito alto. O Yves viu tudo acontecer, ele estava solando e o Dinho estava na frente dele, curtindo. Tinha ultrapassado a linha de segurança, sem perceber. Deu um passo para trás e o chão desapareceu.

 

Rapidamente fomos para o hotel. Chegaram as primeiras notícias. Ele estava acordado, falando. Conseguia se mexer. Graças à Deus. Aparentemente não tinha quebrado nada. Ia fazer os primeiros exames. Então esperamos. Acatamos o pedido da produção e ficamos ali, para evitar tumultos desnecessários no hospital.

 

Os primeiros exames mostraram aquilo que foi publicado na mídia. Agora só nos resta aguardar e rezar pelo nosso amigo. Força sempre, mano véio.

 

Este é o comunicado oficial, postado no nosso site:

 

Na noite de sábado, 31, Dinho Ouro Preto, vocalista da banda Capital Inicial, caiu de uma passarela, parte integrante do palco onde a banda se apresentava, durante show em Patos de Minas- MG.

Após os primeiros cuidados em hospital local, que diagnosticaram um leve traumatismo craniano, o cantor, lúcido e com estado de saúde estável, foi transferido para São Paulo. Nova bateria de exames realizada confirmou o diagnóstico inicial. Dinho passa bem, permanece estável e sob os cuidados da equipe do Neurologista Milberto Scaff no hospital Sírio Libanês, em São Paulo.
A família e a banda agradecem o apoio dos fãs e pedem o tempo e espaço necessários para que Dinho possa se recuperar e voltar aos palcos o mais rápido possível.

Família Capital Inicial


Tudo azul em Ribeirão Preto.

23 23UTC Outubro 23UTC 2009 por felemos

Eu sei que tenho escrito pouco, e não acho legal. O momento que eu sento quieto na frente da telinha é importante para mim,  tenho feito isto menos do que gostaria. Não adianta lutar contra os fatos. Eu comecei este ano cheio de planos. Beber menos, consegui ficar uns 40 dias sem beber cerveja após o Carnaval. Comecei à nadar duas vezes por semana, intercalado com musculação e corrida. Era o projeto Cinquentão Gostosão. Chegar às Olimpíadas de Londres conseguindo correr uma maratona.

Em Maio eu tive uma gripe super-forte, que me derrubou durante uma semana. Talvez fosse a dita-cuja, mas nunca soube. Apenas me lembro de que fiquei sem forças para nada, só queria ficar deitado. Quando passou, começou um inverno muito frio, e fui deixando a natação de lado.

Em Agosto começaram os ensaios, todas as tardes das duas às oito. Menos às sextas e segundas. Sexta é dia longe de SP, na estrada. Às segundas descansamos. Então toda rotina positiva se desmanchou.

Mas um grande disco nasceu. Se eu retornar aos bons tempos, tudo seguirá bem.

Agora, parar de beber…

Então recebi um telefonema da produção. Caiu uma chuva medonha e molhou todo o equipamento. O show precisou ser cancelado. Que bode. Decidimos sair e jantar juntos no Pinguin. Apesar do perrengue estávamos de bom humor. Eu comi um filé a parmegiana delicioso, o pessoal beliscou uns petiscos. O Robledo sugeriu a gente ir à uma casa noturna chamada Vila Dionísio, o cara conhece tudo por lá.

Chegamos, a casa estava lotada. Achei um canto perto do balcão, e tomei cerveja inglesa enquanto esperava o show do Elvis Presley! Foi muito legal, depois conheci os caras da banda, todos muito gentis. O Elvis está bem, fala português fluentemente, me disse que a morte dele não passa de boato e especulação.

Acabei a noite jogando sinuca com uns roqueiro locais, foi muito legal. Eu jogo um pouquinho bem, mas parece que meu talento marcou… Os caras aproveitaram para saber tudo o que podiam sobre o Aborto Elétrico, o Hotel Básico. Entre copos e tacadas a noite passou rápido.

Poucas horas de sono e saída para Americana. A cama da nave-mãe nunca pareceu tão macia…

Em Americana, tarde telesportiva. GP Brasil e FlamengoxPalmeiras. Uma decepção e uma grande alegria! Nada como vencer o líder! Eu faço um mea-culpa. No início do campeonato critiquei meu time. Mas hoje ele só me dá alegria! Seremos campeões!! O Andrade é foda!

Ah, o show! Choveu, teve pouca gente, mas foi demais! Nos surpreendemos, afinal o desatre parecia iminente. Os deuses do rock’n'roll sempre dão uma forcinha nas horas inglórias.

Na volta para SP tivemos a agradabilíssima companhia do nosso querido empresário, que nunca mais havia viajado com a gente de bumba. Enquanto tomávamos alguns goles de uma bebida alienígena meio amarga ele nos deleitou com uma seleção musical do mais alto nível, acompanhada de efeitos luminosos interessantes. Uma noite marcante.

Francamente

18 18UTC Setembro 18UTC 2009 por felemos

Finalmente íamos viajar no nosso ônibus completamente reformado. As últimas semanas foram de shows distantes demais para a bumba, ou próximos demais. Playstation 3 e TV LCD! O Dinho trouxe dois jogos, um de corrida e o outro de aviação. Jogamos mais o de aviões, mas ambos são mais apropriados para serem jogados no conforto do lar, durante horas, são jogos individuais. Numa situação como a nossa tenho certeza que assim que começarmos a jogar futebol não vamos mais querer parar. É preciso haver disputa entre os jogadores, não apenas entre o homem e máquina. Sobrou para mim comprar o jogo…

A noite passou rápido e cedo chegamos à Franca. Estávamos preocupados com o show. No dia anterior, durante o ensaio, soubemos que diversos shows haviam sido cancelados na cidade nas semanas anteriores, por causa da Influenza A. O nosso também estava pra ser cancelado. O promotor do show é um amigo nosso e concordava em arcar com os prejuízos, seriam recuperados em uma outra oportunidade. Poucos ingressos haviam sido vendidos, a expectativa era de uma casa vazia, se a gente decidisse fazer o show. Os shows em Franca sempre foram tão bons… Ficamos chateados e consideramos as possibilidades. Só havia uma, claro, como sempre. Desistir nunca, retroceder jamais! Cancelar o show sequer foi cogitado. Tocaríamos para os poucos abnegados corajosos o suficiente para enfrentar a terrível ameaça do vírus mutante!

Café da manhã antes de dormir, uma (con)tradição da estrada… Pessoas de banho tomado, arrumadas, prontas para as labutas do cotidiano, sempre se surpreendem ao ver aquele bando de marmanjos de bermuda, camisetas pretas e caras de sono atacando as jarras de suco e cestas de pães, falando alto e agindo como se estivessem em suas próprias cozinhas. A estrada é para poucos…barulhentos!

A solidão do quarto de hotel, a briga com o black-out que ou não blecauteia o suficiente, ou é velho demais, tem as pontas soltas do trilho e não fica rente à parede, ou é curto demais e deixa o sol entrar por baixo, pelos lados, pelo meio… Isso quando tem black-out. Nos hoteis de Minas Gerais é comum não ter:

- “Uai sô, pra que esse tal di brecauti? Di dia num pricisa, tá todo mundo acordado, di noite num pricisa, já é escuro…”

A esperança que o sono dure até a hora do almoço, que será adiado ao máximo, até os limites impostos pelos restaurantes das cidades do interior. A gente brinca dizendo que nestas cidades os restaurantes fecham para o almoço… Depois de 13:30 hs cuidado, depois de 14:00 hs adeus almoço. Pra quem foi dormir às oito ou nove da manhã, é cedo ou tarde demais.

Gostamos de almoços em turma, desta vez fomos eu, o Yves, Fabiano e o Peninha, o fotógrafo que estava nos acompanhndo desta vez. Achamos uma churrascaria, e devoramos muita picanha com cerveja gelada. Fomos os últimos clientes à entrar e praticamente varridos para fora, já que nos prolongamos nas saideiras e vimos o local esvaziar, os garçons irem embora e a mulher da faxina nos olhar com um olhar estranho.

De volta ao hotel, a certeza de que o resto da tarde seria longo, quente e monótono. Procurei me informar sobre onde poderia encontrar um video game para o PlayStation. Alguns shoppings fora da cidade, mas as vans não podiam sair do hotel, estavam aguardando as ordens da produção. O Magazine Luiza, algumas esquinas abaixo, para lá o motorista da van podia me levar, era perto.

Claro, assim que pisei no magazine deu uma vontade incontornável, inarredável, inenarrável, insofismável, de ir ao banheiro… e agora? O video game não era Borrando Ladrilho – O Ataque do Cocô Assassino, nem Bixiga Cheia -  Uma Explosão dos Sentidos. Mas o perigo era real e imediato, enquanto perguntava onde havia um banheiro. Havia um, relativamente limpo, e durante alguns minutos fiquei imaginando quem seria essa tal de Luiza, enquanto plantava uma obra nas entranhas do seu magazine…

PS: Duas semanas depois fomos forçados a cancelar dois shows, por causa do tal vírus mutante. A gente brinca até ficar sério.


Welcome to the USA! – parte 2

10 10UTC Setembro 10UTC 2009 por felemos

Resolvi alugar um GPS também. O cara me trouxe um bolsa com uma trapizonga dentro, e foi embora. Fiquei olhando aquele treco, desmontado em várias partes, pensando que no Brasil um funcionário solícito e paciente teria instalado aquilo para mim antes de entregar o carro, e explicado como funciona…

Após nove horas de vôo eu estava meio sonado, mas gostei do desafio, e após encaixar a parte ‘A’ na parte ‘B’ tomando cuidado para não danificar a parte ‘C’, que se sobrepõe à parte ‘D’, mas atenção!, o contrário pode quebrar o aparelho e deixar sua carteira sobreposta em U$ 180,00, liguei o fio no acendedor de cigarros e a telinha ganhou vida.

-”Vamos lá, vamos lá, esse negócio é auto-explicativo…”, eu pensei. Digitei o endereço do hotel, e mágica! Uma voz suave me conduziu por labirintos de ruas e highways, até a porta da minha morada por três dias. Salve o GPS! Salve o GPS! Meus amigos, tornei-me um convertido! Os dias restantes foram todos assim, digitar o endereço, salvar em meus preferidos, e pronto. Eu sabia até a hora em que ia chegar aos lugares! Até errar o caminho fica bom, porque o aparelho recalcula a rota e, na verdade, com um GPS você nunca está perdido. Se perder é mais um dos comportamentos do século XX (e anteriores) que gradualmente cairão em esquecimento. Em breve vamos ter óculos com GPS projetado na lente, e mais tarde lentes de contato com GPS e Bluetooth, até chegarmos à projeção direto na retina, como Matrix.

Eu planejei meus três dias: Terça, comprar roupas. Lojas de rua e shoppings. Camisetas e camisas, basicamente. Eu gosto de camisetas vintage, com ar de antigas, e desenhos especiais. É difícil encontrar muita variedade destas camisetas por aqui. Meias e cuecas também, viajei sem troca de roupa nenhuma. Quarta, equipamentos e informática. Quinta, compras de última hora, presentes, a segunda mala. Ir a Key Biscaine. Tentei velejar, mas desgraçadamente não ventou nenhum dia. Cerveja no calçadão.

Me senti agora como um dos personagens do filme ‘Quero ser John Malkovitch’. Pra quem não viu este filme extraordinário, a história é sobre uns caras que conseguem ter acesso à consciência do Sr. Malkovitch, e passam a ganhar dinheiro com isso. Eles ‘alugam’ a cabeça do sujeito para outras pessoas. Quem vive os seus vinte minutos de John M. volta à sua vida normal completamente viciado, por ter experimentado a consciência de uma pessoa supostamente incrível. Pois bem, tem uma hora que um sujeito (uma garota, eu acho) entra na consciência de JM justamente quando ele está fazendo uma coisa completamente imbecil, tipo discutindo com seu decorador que cor de toalha combina melhor com o shampu que ele usa, ou algo assim. Quem está vendo de fora (nós) vê que o Sr. Malkovitch em alguns momentos é tão fútil e pueril quanto qualquer um. Mas quem sai da cabeça dele depois deste momento diz que viveu a experiência mais transcendental do mundo. Será que alguém por aí teve uma experiência transcendental ao saber que fui comprar cuecas?

O segundo dia foi o dia do equipamento. Uma parte comprei pela internet e mandei entregar no meu hotel. A outra parte fui atrás, guiando até as lojas. Miami tem poucas grandes lojas de música. Elas nem ficam em Miami, mas sim em cidades próximas, tipo vc está na Paulista e a loja fica em Mauá. No caso uma ficava em Fort Lauderdale, as outras duas ficavam à milhas e milhas de qualquer lugar/nesta terra de gigantes/que trocam níqueis/por desodorantes (ah, a letra não é assim? Humm….)

Um microfone em particular, para conseguí-lo eu guiei por uma hora até a loja que o vendia, paguei e fui retirar no estoque, que ficava à quarenta e cinco minutos dali.

A melhor coisa dos carros americanos, que só agora está chegando aqui é o Cruise Control, ou Piloto Automático. Voce aperta um botão e pronto. O carro trava na velocidade escolhida,  acelera e reduz sozinho. A única coisa que o babão precisa fazer é manter as mãos no volante e virar pra lá e pra cá, pra não sair da pista. E ainda tem gente que gosta de passar marchas… Melhor, só uma limousine com motorista. A idéia por trás disso é que a gente guia as nossas vidas, e alguém guia o nosso carro. Mas infelizmente o mais comum é ser guiado pelo seu carro, e ter a sua vida guiada por ignorantes, ou corruptos. Aí, meus caros, as pessoas dão tiros umas nas outras porque um não gostou da buzina do outro.

Quando eu me estabaquei de moto, há distantes vinte e alguns anos atrás, foi exatamente isso que aconteceu. A moto me guiava, ela estava no comando, eu era um passageiro feliz, o acelerador algo tão banal quanto um chopp no fim da tarde. No momento em que precisei ser um piloto, porque minha ignorância e orgulho haviam me levado à uma situação de risco extremo, eu não era piloto coisa nenhuma e fui direto para o chão, a oitenta por hora, com a moto em cima da minha perna. Guardo as cicatrizes com o maior carinho. Se os médicos não tivessem conseguido salvar o meu pé esquerdo, eu poderia ser hoje o baterista do Roberto Carlos! Detalhes tão mecânicos de nós dois… He he he… (desculpa, Rei!)


À pé em Recife e azul em Caruaru

2 02UTC Setembro 02UTC 2009 por felemos

Três hora e meia de viagem até Recife. Chegamos no nosso hotel em Piedade no começo da madrugada.

Não consigo me lembrar direito do que aconteceu. Vou tentar, mas aqui está em primeira mão uma demonstração do que ocorre na mente de um roqueiro depois de décadas de viagens e shows. Aquele dia especial, intenso e único, desaparece nos meandros de neurônios cansados e sinapses rompidas.

Acordei na manhã de sexta, o mar estava baixo, deu uma vontade de nadar. Estamos em Recife, onde os arrecifes ao largo bloqueiam as ondas na maré baixa, e se formam grandes piscinas naturais à beira da praia. Deveria ser um paraíso. Mas onde o hotel fica a água é tão suja que o nojo vence a vontade. Do meu apartamento eu via os pedacos de plástico e papel boiando n’água. Sabia que de perto era muito pior.

Reparei que foi colocada uma grande quantidade de pedras, na frente dos prédios da orla, para conter o avanço das águas. Os prédios foram construídos próximos demais ao mar. Era lua nova, a época do mês das marés mais fortes. Na maré alta as pequenas marolas castigavam o quebra-mar. Daqui a dez anos estes prédios todos vão sucumbir, e esta praia, antes paradisíaca, será um monte de escombros, eu pensei. A ganância humana será castigada. Quando começamos a nos hospedar neste mesmo hotel, há pouco menos de dez anos, havia um pedaço de areia que se mantinha seco, mesmo na maré alta. Agora, nada. Duas vezes por dia as ondas batem sem cessar no quebra-mar. Seis meses atrás, quando estivemos em Recife pela primeira vez este ano, o quebra-mar era muito menor. Agora, para chegar ao que restou da praia você precisa escalar uma parede de mais de metro de pedras gigantes. Sem elas os edifícios já teriam caído. Pode ser que, se a situação piorar, o homem seja obrigado a construir um segundo quebra mar, desta vez em cima dos arrecifes. Pode funcionar durante algum tempo. Mas a última palavra sera sempre da natureza.

Um passeio pela praia, sem celular, sem relógio. Afinal, nestas mesmas tristes areias fui roubado Fevereiro passado. A maré começando a subir, a confirmação da água imunda, a vontade de querer se jogar n’água divide meu coração com a razão que diz não. Mas não pela possibilidade de micoses ou otras cositas màs, e sim por uma certeza que de repente clareia a mente, uma convicção que surge da observação. Banhar-se numa água como esta é aceitar a ignorância e a corrupção que são a causa desta nojeira. É ser cúmplice dos filhos-da-puta. Não se banhar subitamente se tornou um ato político, solitário, inútil, porém necessário. Voces sujaram a praia? Então fodam-se, não estarei nas fotos dos turistas desavisados nem minha alegria encherá os olhos dos locais depauperados. Fui para a piscina…

Sozinho na piscina. Água clorada, tratada. Um funcionário limpa a gosma que fica nas bordas, onde a água com excesso de loção para bronzear, loção anti-solar, pelos, cabelos e células epiteliais mortas deixa o seu rastro gordurento. Pronto. Parece tudo tão limpo e claro agora. Que nem nossos condomínios e prédios com seguranca e cercas eletrificadas. Deixa a sujeira de fora. Se sujar, limpa logo. Se morrer, enterra logo. Se feder, Gleide neles.

Bem, uma cachaça ao meio dia há de me relaxar. Peço uma caipirinha e me acomodo numa espreguiçadeira. Um pequeno grupo de cinco pessoas, três mulheres e dois homens, tagarelam próximos. Com certeza tripulantes de algum avião. Amigos circunstanciais. Amigos. Não fazemos qualquer coisa para ter amigos verdadeiros? Quantos temos? Quantas amizades duram uma vida inteira? Para quem podemos ligar quando estamos sozinhos, esmagados pelo peso de um mundo sem amor e verdade? O sol queima minha testa e o vendedor de ilusões se ajeita na espreguiçadeira. Daqui a pouco é hora da massagem…

O almoço foi especial, todos nós no Biruta, um restaurante na areia, na outra ponta de Boa Viagem. Moquecas, moquecas e mais moquecas. Casquinhas de siri. Cervejas geladas e caipirinhas. Bom humor e piadas depreciativas sobre nós mesmos. A maré bem cheia agora, os arrecifes praticamente cobertos. Mastros de um barco encalhado, ou seriam alguns canos de um pier abandonado, lembram um submarino, com seu periscópio e snorkel se projetando acima das ondas. Conversamos sobre submarinos, sobre os nazistas terem chegado até essas águas e afundado alguns navios nossos. Passamos a falar de baleias encalhadas, rapidamente entramos numa discussão sobre os curiosos hábitos de estranhas subspécies de peixões que habitam nossas praias, tais como mocréias, gutchas, barangas e baiacús de gaveta… são tão resistentes que as vezes chegam até aos camarins! hehehe…

Mas o campeão de audiência é o tubarão, personagem frequente destas mornas águas recifenses. Porque vieram comer pedaços de surfistas dedicados, o que aconteceu para incluirem os brothers no seu cardápio, é motivo de acaloradas discussões. E assim o almoço passa rápido,  ninguém come sobremesa nessa turma, e logo estamos com o pé na areia e a cabeça nas nuvens. De volta ao hotel cidadãs e cidadões recifenses nos aguardam no lobby. Entre fotos e presentes espero que tenhamos deixado claro o quão felizes estamos por estar ali, e que se não fosse por eles toda essa galhofa seria sem sentido!

O show? Ah, é… teve um show mais tarde! Magistralmente aberto pelo Biquini Cavadão, nossos companheiros de estrada há 25 anos. O nosso show foi ótimo, mas talvez um pouco amarrado. Será que o som não estava tão bom? Ou será que isso é apenas aquela impressão que temos do mundo quando o olhamos pela fresta de uma porta?  Um surfista dropando uma onda linda, mas pensando na que perdeu, preocupado com o tubarão que o aguarda quando tomar uma vaca e se ralar todo nos recifes?… No final tocamos Música Urbana com o Coelho e o Bruno, e foi demais. O Coelho cantou num microfone inexistente… Eu adorei tocar essa música de novo, tão importante na nossa carreira. Espero que esteja no repertório da próxima turnê.

Agora, Caruaru…meus amigos, o que foi aquilo?? Ah Caruaru, a casa veio abaixo quando o Dinho pegou a bandeira de Pernambuco! Ali eu soube que estava num país diferente! Que energia incrível, que emoção arrebatadora! Todos cantaram tudo, o tesão da primeira vez… Chegamos praticamente na hora do show, não vimos ninguém, não conhecemos a cidade, mas nunca me esquecerei.

Até esquecer de tudo e começar tudo de novo.

Ah BH! – final

22 22UTC Agosto 22UTC 2009 por felemos
Showtime! Os gritos do platéia estão cada vez mais altos: “Começa ! Começa!”  Entramos num palco pequeno, o público bem próximo. Para mim é uma benção, poder ver a platéia nos olhos. Mas também uma fonte de distração inesgotável. E de problemas. Quando encaro alguém, as vezes mostro a língua ou faço alguma gracinha, tipo piscar os olhos alternadamente. Já mandei viradas para determinadas pessoas. Tem uma levada que ficou clássica nas mãos do Charlie Watts, que consiste em não tocar a mão direita quando a esquerda toca a caixa. Nesta fração de segundo em que a mão direita fica parada é possível apontar alguém com a baqueta. As vezes eu encho as bochechas de ar. Um monte de macaquices que não tem nada a ver com tocar bateria. E claro, 90 % das vezes que eu apronto uma dessas eu erro, tipo dou uma baquetada fora de lugar, ou saio do tempo, as vezes a baqueta cai da mão, desastre supremo.
O público estava incrível! Uma zoeira, todos cantando tudo tão alto que cobria o som da banda! Eu vi a galera do fã-clube, muito legal! Todos tão felizes… Eles me deram uma camiseta comemorativa dos dez anos do Fã -clube, que eu pendurei na frente do bumbo.
Os problemas começaram. Por alguma razão a bateria estava montada diferente, as peças não pareciam estar em seus devidos lugares. As posições dos pratos estavam estranhas, os tons-tons meio tortos. Tentei arrumar durante as primeiras músicas, mas cada vez que eu mexia só piorava. O Léo, meu roadie, ficou louco, porque na verdade estava tudo como sempre foi. Então o chiado começou. Nos meus fones entrava um barulho de fritura, tipo quando você joga batata para fritar no óleo quente.
-”Tá fritando!”, eu gritei pra ele, e foi um corre-corre ligando e desligando cabos, correndo pra falar com o Nhá na mesa de monitor, mas não havia nada de errado, o som saía da mesa limpo. Era alguma coisa no meu sistema, só no meu, porque parece que nada aconteceu com os outros caras da banda. Eventualmente ele mexeu na antena do meu transmissor de FM, o chiado reduziu um pouco. Assim foi até o final do show. O som e a bateria conspirando contra mim, mas a platéia falou mais alto e o show pegou fogo.
Lá pela metade do show comecei a olhar para os mezaninos. A platéia ali ficava bem próxima, quase em cima da minha cabeça. Foi quando reparei uma menina de cabelo verde, no mezanino da direita. “Olha, a Natasha!” eu pensei, e fiquei vendo ela dançar e cantar. De repente, o que? Não acreditei, achei que tinha visto errado. De novo! Ela fez de novo! A garota começou a mostrar os peitos para a gente! No começo timidamente, depois escancaradamente. Achei que só eu tinha visto, mas quando olhei para os caras vi o Yves e o Fabiano rindo e olhando para cima. Mais um pouco estávamos todos rindo e olhando para cima!
Então eu vi o Dinho segurando um sutian. Depois outro, ambos pretos. Então caiu no palco uma sandália plataforma de acrílico enorme, salto quinze! Se batesse na cabeça de alguém o cara ia parar no hospital! Uma verdadeira arma branca. No caso, transparente! “Caraca! Elas estão descontroladas!”, pensei, e aí a perfeição técnica e o arranjo bem executado já não importavam mais. O show tinha entrado em outro patamar, raro e delicioso.
Parece que o Dinho falou qualquer coisa sobre Cinderela e sapatinho,  porque de repente começou a chover sapato no palco. Mas não eram arremessados contra a gente, pareciam mais sendo entregues, como presentes! Sai da bateria uma hora, o amplificador do Flávio e do Fabiano estavam cheios de pés de tênis em cima. Nada de tosqueiras não, bons tênis, All Stars novinhos, tênis bacanas. No final do show, antes do bis, eu pendurei um tênis no microfone do Fabiano e outro no microfone do Yves. Peguei a sandália de acrílico na mão, pude sentir o peso do sapatinho… Pendurei um sutian na bateria, enrolei outro na estante do microfone do Dinho! Isto sim é um palco de uma banda de rock ‘n’ roll! Só em BH mesmo!!!
Tenho certeza que mais coisas engraçadas aconteceram, mas a bateria é inclemente, eu não consigo ficar o tempo inteiro ligado na platéia. Em muitos shows acontecem coisas bizarras, mas eu estou lá no mundo do ritmo, movendo duas pernas e dois braços, tentando manter a pressão e a precisão,  simplesmente meu olhar desliga do mundo. Perco as cenas de fanatismo explícito, perco os olhares de êxtase e satisfação, as risadas, os gritos. Claro, tem vez que eu consigo captar um olhar fascinado, ou vejo uma menina fazendo um coração com as mãos para mim. O mais comum, porém, é, ao cruzar o meu olhar a pessoa mexer as duas mãos como se estivesse sei lá, chacoalhando dois chocalhos, e depois juntá-las com se estivesse rezando, implorando. O que será que elas querem dizer? Pessoas estranhas…
No dia seguinte a equipe foi desmontar o equipamento e embarcá-lo no caminhão para o show de sábado, em São José do Mantimento. No palco ainda havia vários sapatos e tênis. Parece que muita gente voltou para casa descalço… ou com menos roupas! Espero que pelo menos também com o coração feliz. Suados e com os ouvidos zoados, com certeza!

Welcome to the USA! – parte 1

12 12UTC Agosto 12UTC 2009 por felemos

Desembarquei em Miami pela manhã. Sete e meia, já um calor úmido, abafado. Crise? Com certeza, milhões de desempregados. Bairros decadentes e sem-casa pelas ruas. Mas, mesmo assim, os EUA continuam foda. Vc sente o poder e a grana dos caras em cada detalhe. Como todos sabem, o diabo está nos detalhes. O mundo pode estar acabando, mas os caras não relaxam. Quando fazem um aeroporto, fazem O aeroporto. Quando fazem uma calçada, fazem A calçada. O chão é tão brilhante, vc não vê uma sujeira. Não é que os caras inventaram as coisas, mas parece que eles sabem que mais importante do que fazer é manter.

Resolvi  aluguar um carro, afinal Miami é uma cidade extensa, muito extensa. Eu ia rodar bastante, atrás do equipamento, e na pátria do automóvel não dá pra ficar sem carro. No terminal de desembarque, a primeira surpresa. Entrei no shuttle da Localiza, uma negona me perguntou se eu tinha reserva. Quando saí do Brasil nem me preocupei, achei que alugaria qualquer carro da primeira companhia, assim que chegasse.

- “Não!”, eu disse, todo pimpão.

- “Me desculpe,  mas não alugamos carros sem reserva, sir…“, e apontou com os olhos para a porta por onde eu tinha entrado.

Ooops. E se as outras forem assim? Com um leve temor, sinalizei para o próximo ônibus, da Alamo. Um tio nazista chamado Aleman abriu a porta e pegou minha mala, que viajou literalmente vazia. Não levei nada, apenas minha necessaire e a roupa do corpo. Respondeu com desprezo ao meu – “Good morning, sir!” Temor aumentando consideravelmente:

- “Sir, I don’t have a reservation and…”, o Aleman sacudiu a mão como se eu estivesse falando besteira. Não abriu a boca e me ignorou completamente. Achei que isto era um sim, nazi style. Segui intranquilo na pequena viagem até a loja. O nome Aleman estava numa placa no alto ao lado do banco do motorista. Seria um apelido, pensei? Aleman Smith? Não parecia provável.  O sujeito tinha a cara daqueles que ganham o apelido de Alemão no Brasil. Lembrava o Tafarel depois de levar um frango.

Chegamos nos escritórios, suspense, e … sim! a Alamo aluga carros sem reserva, e, lucky you, sir!, ainda havia alguns carros disponíveis! Então divaguei… Vou alugar um carro, estou na Terra do Leite e do Mel, tá calor pra caralho, eu nunca, hum,.. porque não?

- “Vocês tem conversíveis?”, e me imaginei cruising a Highway 66 com os cabelos, hum, os poucos cabelos ao vento, óculos escuros, o céu como teto e o infinito como destino…

- “Sim senhor!” o atendente me disse.

- “É muito caro?”,  ele fez as contas, não ficava muito mais caro.

-”Eu nunca dirigi um!’ Então ele falou as palavras mágicas:

- “A vida é muito curta para a gente não aproveitar as chances…”

- “E a morte é a última coisa que eu quero que me aconteça! Quero alugar o coversivel!”

O sujeito, um cara simpático, provavelmente um pouco mais novo do que eu, olhou para mim e disse:

-” Vamos fazer o seguinte: amanhã é o meu aniversário, e eu vou te dar um presente! Vou te dar um carro superior pelo preço de um standard. Qual daqueles dois você prefere, o vermelho ou o branco?”, e apontou para fora.

Não, não era possível. O cara estava falando de dois Volvos novinhos, C70 eu acho. Um puta carro, um sonho. Um mega-conversível. Eu fiquei bobo, ha ha, isso não tá acontecendo, e, … caraca, vermelho paixão, emoção, ou branco, cool, style, rico sem fazer força… Optei pelo branco. O vermelho pareceu over, ainda mais que eu estaria cruising sozinho. Conversível vermelho só com uma garota quente ao seu lado.

Botei as mãos no volante. Que painel, olha esses bancos, o som… como abre o porta-malas mesmo, é por pensamento?… Guardei a mala, fechei o capô, liguei o motor, imaginei a potência que se escondia por trás do ronco suave, e, tchan tchan tchan tchan, apertei o botão que tinha um desenho do carro sem capota! E …. nada.

Apertei de novo. Nada. Será que eu estou fazendo alguma coisa errada? Examinei o painel inteiro, botão por botão. O console,  a lateral da porta. Não, era ali mesmo, aquele era o único com o símbolo correto. Pera aí, tem uma luz piscando no painel, alguma coisa no porta-malas. Abri-o novamente, havia uma série de desenhos explicando como a geringonça funcionava. Era necessário que uma certa tampa estivesse abaixada, para que nela a capota se encaixasse quando recolhida. Tirei minha mala, abaixei a tampa, e… a mala não coube de volta. Não, não, … não …

Desgraçado e abatido, voltei ao escritório. Me deram a alternativa de escolher qualquer outro carro no pátio. Escolhi um parecido com o Space Fox, chamado Vibe, da Pontiac. Nem pensei em algo mais esportivo, resolvi que já que estava ali para comprar utilidades o carro que me cabia era um utilitário. Não pude ter o sonho, que se dane, qualquer lata servia agora.

Oh, pobre baterista. Tão inteligente, mas desta vez Tico e Teco bateram cabeça.

Só agora é que saquei que marquei a maior touca. Eu poderia ter levado a mala para o hotel de capota fechada, e depois de largar o traste lá, rodar sem capota até o dia de ir embora. Como não pensei nisto na hora? Como esta idéia tão simples, tão óbvia, não passou pela minha cabeça. O stress da viagem? O medo do novo? Deus não dá asas às cobras…

Ou talvez seja que me foi destinado andar a primeira vez de conversível COM uma garota quente ao meu lado…

Tocando tuba em Araçatuba

20 20UTC Julho 20UTC 2009 por felemos

Faz algum tempo que não escrevo sobre os shows. As últimas semanas foram estranhas, eu não conseguia encontrar foco e determinação para escrever. Até para estudar música tem sido difícil. Uma vontade de permenecer inerte, de não fazer nada, de deixar de existir neste mundo virtual. Vontade de não fazer sentido, de largar certas exigências que eu mesmo me propus. Tipo aquela vontade que dá de não estudar na véspera da prova, de abandonar o regime depois de meses de controle e dedicação.

Mas eu não desisto nunca, então sacudi estes pensamentos pra lá. Hoje já estudei piano de novo, e estou aqui na frente do computador novamente.

Este findi tocamos em Araçatuba, que fica a uns 600 km de São Paulo, sentido Oeste. O coração da pátria sertaneja. Muita cana, gado e violas caipiras. Foi a última viagem na nave-mãe antes da reforma. Pois é, depois de longos anos finalmente vamos ter um vídeo-gamea na bumba! TV LCD e som 5.! Mais lugares na sala, uma mesa grande para voltarmos à jogatina, um micro-ondas para a graxa, seremos todos felizes! Eu e o Pedrão fomos até a garagem, que fica longe pra dedéu, no começo do mês, e conversamos com o dono da bumba sobre as mudanças que gostaríamos de fazer. O nome do proprietário da bumba é Toshó, talvez seja um apelido. Ele fornece ônibus para quase todas as bandas e artistas. Na garagem estava também o ônibus dos Inimigos da HP. Queria ter dado uma olhada, mas o tempo era escasso e ficou para outra vez. Provavelmente para nunca, pois depois da reforma não vou querer entrar em nenhum outro ônibus. Mal posso esperar, cruzar o Brasilzão massacrando meus companheiros no FIFA 2009!

Atrasamos a saída porque o hotel só ia poder nos receber depois das nove da manhã. Os artistas que tocaram na noite anterior queriam dormir um pouco mais. Onde já se viu, artista descansar? Tem é que ralar, tá pensando o quê? Essa vida fácil, levada na flauta, tem que ter pelo menos um perrengue. No caso, roqueiros bêbados pondo eles pra fora da cama…Afinal, roqueiro não é artista, né?…

A viagem foi boa, temos passado longas horas ouvindo música, bebendo e jogando conversa fora. Decidimos começar os ensaios para o próximo CD semana que vem. No início de Agosto devemos pegar um ritmo de três ensaios por semana. Desta vez vamos ensaiar MUITO, realmente tirar das novas músicas tudo que elas puderem dar. Tenho certeza que vamos fazer nosso melhor disco desde o Rosas e Vinho Tinto, que na minha modesta opinião ainda é o nosso melhor pós-Acústico. Sem contar o Æ, que é para poucos. Inclusive um dos sonhos que provavelmente não realizarei é uma turnê do Æ, em pequenos clubes, tocando todo o repertório do disco, como foi gravado. Quatro caras, quatro acordes e muita zoeira. Seria o máximo…

Hotel Pekin, de muitas outras estadias, nos recebeu. Passei a manhã na net, planejando minha viagem para Miami. Viajo hoje, preciso comprar cerejas para o meu bolo… Consegui dormir de tarde, a noite estava quente e senti que seria um bom show. Nossos fãs do interior de SP apareceram, a Isa e o casal que não lembro o nome, me desculpem. Eles sempre aparecem, é legal! Quantos shows eles já foram? Devem ser um dos recordistas!

A verdade é que este mês de Julho foi um dos mais fracos dos últimos anos, e por um motivo simples. Julho é o mês por excelência das feiras agropecuárias e das festas de peão. Este ano se intensificou algo que começamos a ver no ano passado: a volta implacável do sertanejo nestas festas, com a consequente expulsão do pop-rock. Miguou, cara-pálida, o espaço para gente barulhenta como a gente. Junte à isso uma redução do número de feiras, por causa da crise, que pegou em cheio os exportadores agro-pecuários brasileiros, e tome moda de viola na cabeça. Mas é bom, perídos de cheia seguem-se à períodos de baixa. A agenda de Agosto já está melhor, de certa forma era de se esperar um final de ano mais calmo, depois do calor do ano passado por causa do lançamento do DVD Multishow.

O show foi incrível, todos cantaram tudo, depois conversei com várias pessoas muito felizes, fazia dois anos desde a nossa última visita, e neste meio tempo pouquíssimo rock passou por lá. Mas é engraçado como ninguém nunca está satisfeito. É a sina do ser humano… o que nos empurra para a frente! Ou para o fundo…

Ficamos no camarim depois do show, eu não queria voltar pro hotel. Acompanhei a desmontagem do palco. Sempre me surpreendo nestas horas, lembrando de quando a gente começou, tocando nas calçadas com um equipamento que cabia numa Variant. Mais do que dever cumprido ou sonho realizado, o que bate é a sensação de que estou ficando velho. Lembro dos amigos que se foram. Lembro dos meus filhos. Vejo minha vida refletida nesses palcos, a gente viaja milhares de quilômetros, mobiliza centenas de pessoas que montam estruturas gigantescas, para que durante uma hora e meia a gente faça naquele palco a única coisa que a gente sabe fazer direito e que dá sentido às nossas vidas. Não é a música, no final das contas, mas o sonho. Quando acaba, tudo o que resta é um palco vazio, e a promessa de reviver esse sonho uma próxima noite, numa próxima cidade. A Reinvenção do Sonho poderia ser o nome da Turnê Interminável.

Estou fisolofando. A melhor coisa que a gente sabe fazer e que dá sentido às nossas vidas são os nossos filhos, claro! Porque eles são reais, e o sonho deles agora é que nos importa!

Bye bye Brasil!

O sonho do passarinho

6 06UTC Julho 06UTC 2009 por felemos

Eu desci do meu apartamento, mas não era o apê de São Paulo. Parecia uma cidade do exterior, Nova Iorque, o Brooklin especificamente, me vem à mente agora. Havia na calçada na frente do prédio uma espécie de cabine, medindo mais ou menos um metro de largura por três de comprimento. Ela tinha duas portas, uma em cada extremidade, de lados opostos. Uma porta, a que não era a minha, fazia frente à calçada, a minha fazia frente à rua. A cabine era de vidro e perfis de metal.

Abri minha porta, tinha um cadeado. Me lembro que tive dificuldades para encaixar a chave. No chão havia um pequeno canteiro, mas não havia nada plantado lá. Comecei a cavar, me parece agora procurando a minha agenda, mas encontrei uma caixinha metálica. Era uma espécie de cápsula do tempo, onde eu havia guardado coisas para serem encontradas no futuro. Mas era estranho, porque eu sabia que havia enterrado aquele ‘tesouro’ ali recentemente, e não deveria estar mexendo nele. Tirei da terra duas caixas se não me engano, uma era redonda e a outra retangular. Coloquei-as num banquinho que estava ao meu lado, fora da cabine. Me preocupei com as pessoas que passavam, elas estavam vendo eu desenterrando minhas caixas, descobrindo meu esconderijo secreto.

Olhei para a outra extremidade da cabine, a porta ali estava aberta, me pareceu até que não havia porta. Uma pessoa que entrasse por ali poderia chegar até o meu canto. Senti que estaria tudo bem se eu trancasse a minha porta. Quando terminei de mexer com a terra, fechei a porta e tentei passar o cadeado. Mas os furos por onde o cadeado deveria passar não se encaixavam. Enquanto eu tentava ajustar a porta, a cabine começou a se mover, como se tivesse rodas, e seguiu pela calçada. Isto não me pareceu estranho. Eu fui andando junto à ela, tentando trancar a porta, e deixei meus tesouros para trás. Isto durou mais ou menos um quarteirão, até que finalmente tranquei a porta. A cabine parou de se mover. Percebi então que o cadeado, agora uma espécie de cabo, estava muito frágil, e que qualquer um conseguiria arrombá-lo. Havia apenas alguns poucos fios do cabo de aço inteiros, e um alicate de corte facilmente romperia o cabo.

Apareceu então o dono da outra metade da cabine, que era o porteiro do prédio onde eu morei antes de me mudar para a minha residência atual, há três anos atrás. Ele aparentemente usava a cabine para guardar seu material de limpeza, como vassouras, rodos e baldes. Ele olhou o cabo quase rompido e disse para eu não me preocupar, porque ele ia dar um jeito. Era muito simples, ele disse. Ele compraria uma tranca nova, e prenderia uma parte dela no ‘morto’ do prédio. Ele insistiu nisso, falou duas vezes essa palavra. Então me explicou o que era o ‘morto’ de um prédio, eu nunca tinha ouvido essa expressão antes. Estávamos agora no telhado do prédio na frente do qual a cabine havia parado. Eu podia ver a rua lá embaixo, os telhados dos prédios da cidade se extendendo ao horizonte. Ele apontou para o prédio em frente. Eu podia ver as janelas e os batentes delas. Uma parte dos batentes ultrapassava a linha da parede. Pronto, essa protuberância era o ‘morto’ de um prédio. Fazia sentido, de algum modo.

Então, no teto da cabine, que agora também estava no telhado, eu reparei num passarinho muito pequeno. Deveria ter o tamanho de um dedo polegar. Era muito frágil e delicado. Era um passarinho completo, com penas, bico comprido e asas. Pensando agora, parecia o passarinho que havia num brinquedo que eu adorava quando criança, que consistia num fio de arame rígido preso à uma base. Neste arame de mais ou menos trinta centímetros corria uma bolinha de madeira com um furo no meio. Preso à bolinha por uma pequena mola havia o passarinho. Quando leváva-mos o passarinho até o topo do arame e o soltáva-mos, ele, ao descer, fazia o movimento de bicar, por causa do atrito da bolinha com o arame. Eu e meus irmãos adoráva-mos este brinquedo, tivemos vários. Era artesanal, normalmente compráva-mos quando visitáva-mos a Feira Hippie de Brasília, hoje Feira de Artesanato.

Aquele passarinho parecia frágil demais para estar vivo. Pensei que se ele não conseguisse comida morreria logo, pensei como ele conseguiria fazer isso, parecia impossível ele comer alguma coisa. Ele não se assustou com a nossa presença. Então de repente ele alçou vôo, e me surprendeu. No céu à minha frente ele voou para a esquerda, em direção ao lugar de onde eu tinha saído. Um outro se juntou a ele, agora eram dois passarinhos. Então algo mais estranho aconteceu: eles viraram cartuns, desenhos de passarinhos, como o Woodstock, aquele amigo do Snoopy. Como desenhos eles continuaram voando, eu acompanhei seu vôo até eles pousarem numa espécie de torre em cima do que parecia ser o meu prédio.

Os ares de Valadares

22 22UTC Junho 22UTC 2009 por felemos

Efeitos colaterais do rock’n'roll: Tive um sonho estranho e acordei às cinco da manhã. O sono foi embora, depois de uma hora fritando resolvi levantar e fazer alguma coisa de útil.

Ante-ontem tocamos em Governador Valadares-MG. É uma cidade bacana, o CI tem uma longa história de ótimos shows lá. Não foi diferente, tocamos numa festa à fantasia para 6000 pessoas. Mas o perrengue é a viagem de volta. Doze horas na nave-mãe, sem almoço. O que vc pode fazer? Deixar para dormir o mais tarde possível, para acordar o mais perto possível. Então estiquei os limites, fui dormir depois das oito da manhã. Funcionou um pouco, porque acordei às duas e chegamos às quatro e meia em SP. Ainda fiquei duas horas olhando pela janela vendo os bois passarem. Mas quando vc tenta dormir no dia seguinte no horário das pessoas normais, teu organismo não entende nada. Desta vez consegui dormir cedo, mas meu corpo está acostumado com sonos picados, então quando eu acordo, já era. Melhor sentar na frente do computador e escrever.

Tá clareando em Sampa. Vcs sabem que esta noite que passou é a noite mais longa do ano, o começo do inverno. Ou a noite de hoje, sei lá. Bacana pensar nisso, nos ciclos da natureza. O inverno é o momento de recolhimento e reflexão, quando as árvores perdem suas folhas, os animais hibernam e tudo fica mais quieto. Ou não… balada neles! Consultei o I-Ching recentemente, até escrevi um blog a respeito, mas não sei se vou publicar. Ele falou sobre a necessidade de eu me acalmar, se referindo à um período longe dos agitos e das atrações e diversões do mundo mundano. Logo em seguida meu celular foi o roubado, o terceiro que perco em seis meses. Nada como um perder o celular para se desligar do mundo…

Gostei do show de Valadares, achei que tocamos bem. A platéia era surreal, enfermeiras boazudas, fadas, sheiks, diabinhas de pouca roupa, fadinhas idém, um cara fantasiado de pacote de biscoitos, outro de apicultor. Antes do show eu saí do camarim e dei uma volta pelo público. Privilégio de bateristas. Baixei o boné e dei um rolé, sem seguranças nem nada, apenas com minha taça de vinho e minha cara de pau. Muito bom! A galera ainda estava chegando, eu pude dar uma espiada nas produções. Acho legal que o pessoal leva a sério e se fantasia de verdade. Mas claro, sempre tem um sem-noção que se fantasia de jogador de futebol, tipo pegou a roupa das peladas de domingo. Ou um cara fantasiado de lutador de jiu -jitsu! É claro que o kimono era dele mesmo. A faixa era branca… Eu vi três amigos fantasiados de português da padaria, com chapéu de palha, avental branco e bigodão, hilários.

O sonho: Alguém tinha desaparecido. Eu estava num condomínio de casas luxuosas, espalhadas numa área verde com muitas árvores. O Boréia está comigo. Não sei porque, já que aparentemente o desaparecimento não tinha nada a ver comigo, resolvi ajudar. Então estou ao lado desta casa, tem uma porta e uma escadaria que leva à um subterrâneo. O dia está claro, consigo ver a sala no final dos degraus. Resolvo descer para ver se a pessoa está lá embaixo. O Boréia fica em cima. Chegando lá, parece ser um vestiário ou algo assim. Está vazio. Olho ao redor, encontro mais uma porta. Levemente ansioso, por estar deixando um lugar seguro e entrando mais fundo no desconhecido, empurro-a. É um banheiro com três portas fechadas, as portas dos vasos sanitários. Sinto que posso encontrar o desaparecido ali. Quando vou empurrar a primeira porta, a textura dela é humana, como uma pele macia, inchada, fofa. Entro em pânico, vejo de rabo de olho o buraco do ralo atrás da terceira porta, um buraco gigante, com a forma de um ser humano em posição fetal. Tento voltar e avisar o Boréia, mas meus pés estão lentos e as palavras não saem da minha boca. Acordo ofegante. Aqui estou.

Sete horas. Voltar para cama ou vou malhar? Aproveitar o silêncio da casa para estudar piano ou tentar descolar mais uma hora de sono? Decisões, decisões…