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Calçadão viajandão

19/09/2012

Que bom que é sentir o vento
Fora da bumba
Que bom não estar preso
Na catacumba

Bom dia!
No calçadão
Viajandão
Vou seguir o sol
De olho na sombra

Vendo a vida passar devagar
No rosto das pessoas com pressa

Quem sabe não é a miragem
O gosto do horizonte perdido
Tudo (ao redor) em movimento
Apenas ando mais lento
De pés leves no chão
Em cada cinco rostos
A indagação

O que ele sabe que não sabemos
O que ele vê enquanto corremos
O que ele espera
Sem ter pedido
Sem qualquer sentido.

Alguém em João Pessoa – final

28/03/2011

A praia, infinita, me convidava à frente. A falésia, um arco-íris de amarelos, marrons e ocres, me levava ao alto. A hora também já ia alta. O caminho de ida implicava um mesmo caminho de volta, eu não estava sozinho para poder deixar o tempo me levar. O que eu poderia fazer ali, tão próximo à mãe África, distante do mundo conhecido, de seus perigos e armadilhas, de frente à um novo mundo, estranho, misterioso, encarando o desafio da descoberta e do inesperado? Uma boa mijada, claro!

De frente para o Leste, apontando contra os nossos ancestrais meu nariz, uni-me à mãe Terra, planeta água, através de minhas excreções (desculpa mãe…). Olhei mais uma vez para o horizonte em busca de navios negreiros, para a praia desconhecida, para a falésia onde novos tons de cor surgiam à cada olhar, e encarei a cidade que havia deixado. Eu estava distante, seria uma longa caminhada. Bem, para cada milhão de milhas temos que dar o primeiro passo. Respirei fundo, e … lembrei que a Abolição é paralela à Japurá, rua que foi nosso primeiro porto quando, vinte e seis anos atrás, zarpamos atrás de nossa alforria, ou de nosso sonho se preferirem. Foi preciso atravessar o oceano que separava nossa infância digamos, avoada, no CCJ – Clube da Criança Junkie – em Brasília, de nossa pós-adolescência digamos, arretada, na ACM – Associação Chapadã de Marmanjos – em São Paulo.

Imagens de Sampa apareceram, lembrei do porão da casa do Dinho onde ensaiávamos todos os dias, do nosso primeiro empresário paulista, o Dudu e sua irmã Astéria, vizinhos três casas adiante, da Estela, da Paula Lemos e sua Caravan Marron, da nossa Santa (nem tanto…) Protetora da Japurá, a Patida, do casal português da mercearia em frente, a dona tinha bigode e se chamava Maria, o dono era o seu Manuel, barrigudo e de tamancos, típicos demais para serem reais. Aposto que nunca haviam limpado uma teia de aranha daquele lugar, escuro, sorumbático, garrafas centenárias cobertas de pó nas prateleiras, … quando… um movimento quase imperceptível, uma sombra no canto do olho, eu instintivamente me virei.

Minha impressão foi de que a Matrix tinha dado um soluço. Desacreditei, dei uma pancada na cabeça, tipo para sintonizar melhor a tv. Cocei os olhos. Eu havia capturado o último movimento de algo que não deveria estar se movendo. Como quando a gente olha para o céu numa noite sem nuvens e no exato instante vê uma estrela cadente, mas diferente porque estrelas cadentes são comuns. Uma pedra do tamanho de uma máquina de lavar roupa, das grandes, deu a última rolada e parou à uns cinco metros deste euzinho que vos fala.

De primeira não entendi. Ver uma pedra daquele tamanho rolando pareceu irreal. Aquela pedra devia, deveria estar naquele mesmo lugar há anos. Imóvel, sólida, perene. Depois, como era possível uma pedra rolar ali, a praia era praticamente plana desde a linha d’agua até a base da … falésia. A falésia. Olhei para o barranco gigante, que deveria ter uns trinta metros de altura, eu calculei. Três metros por andar, um prédio de dez andares.

Hum, a pedra ao rolar provavelmente descreveu uma trajetória reta, refiz o caminho imaginário até a base, comecei a subir o olhar, e … encontrei uma marca no paredão de terra, um arranhão, como se algo tivesse raspado ali recentemente. Não podia ser… Continuei subindo o olhar, senti um calafrio. Próximo ao topo, onde a terra avermelhada fazia fronteira à um solo mais cinzento, havia uma reentrância na parede, como o negativo de uma colher, do tamanho aproximado da pedra. Olhando com cuidado, eu vi vestígios de terra solta nas bordas . Não era possível. A pedra havia se soltado do paredão, uns vinte metros acima da minha cabeça, alguns segundos depois de eu ter passado bem à sua frente.

Não fez um strike porque, sei lá porque. Talvez o jogador de boliche estivesse bêbado, talvez. Ou usou uma bola 9 ao invés de uma 12. Mas… duvido que alguém do outro lado use alguma droga, estar lá já deve ser a maior viagem do universo. E se Deus não joga dados, como bem lembrou Einstein, a bola escolhida era A bola. Talvez tenha sido só uma brincadeira. Uma piadinha prática a la Plebe Rude. Um aviso? Pra amar as pessoas como se não houvesse amanhã?

Fiz um zoom da cena, vista de cima, de um helicóptero: um cara sozinho numa praia deserta, o mar verde à sua frente, um paredão às costas, o sujeito está esvaziando a bexiga, longe de tudo, de todos, despreocupado, em completo bliss, nesse exato instante uma pedra pula do paredão, vinte metros acima, exatamente onde ele está, como se alguém tivesse, sei lá, dado um peteleco nela, ou espremido uma espinha, e aquele adorável pingo de puz voado bem no seu olho. A base da falésia é curva, a pedra não bate no chão e afunda, ela rola silenciosamente em sua direção, e, só não o atinge porque a energia que ela perde com o atrito na areia é proporcional à distância que ela percorre, e nosso incauto herói havia acabado de fechar a barguilha e dado três passos em direção à sua casa…

O calafrio virou tremedeira. Se eu tivesse mijado na falésia ao invés de no mar… Arrepiado, cravei o cajado na areia dura e apertei meu passo.

A natureza sempre encontra um jeito de nos lembrar quem é que tem a última palavra. Morrer esmagado por uma pedra enquanto mijava. Como diria meu grande amigo Fred Nascimento, fica ruim na biografia.

Citando a Wikepedia:

“Falésia é uma forma geográfica litoral, caracterizada por um abrupto encontro da terra com o mar. Formam-se escarpas na vertical que terminam ao nível do mar e encontram-se permanentemente sob a ação erosiva do mar. Ondas desgastam constantemente a costa, o que por vezes pode provocar desmoronamentos ou instabilidade da parede rochosa. (…) “

Pois é.

Alguém em João Pessoa – parte 2

14/03/2011

O salão de café é envidraçado do lado do mar, aberto para o lado da piscina. Cadeiras de plástico cobertas com uma capa de pano decadente, encardidas apesar de limpas. As toalhas, cansadas de anos de detergente e ferro quente, magras, poídas. No quarto a tv é antiga, com o velho primo Osmar na tomada, o ar condicionado 8-80. Ou não esfria, ou esfria demais. Um lençol de casal pequeno para as duas camas de solteiro unidas. O tempo e a maresia haviam se infiltrado na alma do grande hotel.

Quem já foi rei não perde a majestade, ou pelo menos não deveria. Não existe outro igual. Na maré alta, os ondas batem embaixo da janela. Você se sente dentro de um navio. Numa ressaca, devem molhar a varanda. Ansiava por uma tempestade que limpasse o céu e a neblina do meu coração, mas a chuva era garoa, eu vagava sem rumo.

Tomaz estava com péssimo apetite. Um copo de suco era um tormento, alguns pedaços de pão faz-de-conta, um gole no iogurte. Nenhuma fruta, nem bolo, nem biscoito. Bel se exasperava, eu contava migalhas, o clima na mesa imitava o lá de fora. Quando o sol ia brilhar, lá vinha a chuva.

O menino começou a se aventurar. Logo perambulava entre as mesas, uma cabecinha loira interrompendo o café dos hóspedes, conferindo o número de cada uma, em busca do fugidio número diferente. Então, voltou correndo:
– “Papai, mamãe, eu vi o passarinho volta-e-vai!”
– “Passarinho volta-e vai?”, a Bel perguntou.
– “É…”, e fez com as mãozinhas para cima, olhando ao redor.
Neste instante um pardal pousou no encosto de uma cadeira, numa mesa próxima.
– “Olha!” ele falou, “Ele voltou!”, e correu para tentar pegá-lo. O emplumado voou assim que ele se aproximou, ele ficou triste. Naquele salão abundavam pardais, acostumados com a presença humana e interessados nas nossas raspas e restos.

Todas as noites são iguais, eu não sei, mas todos os pardais são. Não sei se ele percebeu que o passarinho na verdade eram vários, variações sobre o mesmo tema. Talvez, do seu ponto de vista, próximo ao chão, ele só conseguisse ver um passarinho por vez. Mas desde que viu o primeiro, passou a correr atrás de todos que via. Na vã tentativa de capturá-los? Não sei, ele já devia ter percebido que era impossível alcançar o ser alado. Mas não se cansava, e se divertia.

Passarinho volta-e-vai? De onde ele tirou esta? Porque não vai-e-volta, como todo mundo diz? Mais uma vez subjugado pelo encanto do menino de três anos, relaxei, e, seguindo-o com os olhos, entrei num devaneio. Passarinho volta-e-vai… Comecei a batucar um sambinha na mesa… Passarinho volta-e-vai/Foi embora e não voltou… Então o refrão se materializou:

Passarinho volta-e-vai/Foi embora e não voltou/Meu menino ficou triste/Pasarinho voou

Uau! Me senti o próprio Tom Jobim – Passarim quis voar/ Não deu pousou – E veio a melodia, que claro, não tenho como reproduzi-la em palavras, mas a sei de coração. Passei o resto do dia cantando o refrão, virou a música-tema de nossas pequenas férias em João Pessoa.

Estávamos nos levantando para deixar o salão quando um volta-e-vai pousou no chão, próximo à nossa mesa. Antes que ele corresse para tentar pegá-lo eu o interrompi:
– “Pera aí, meu filho, pera aí!” eu falei baixinho, e o segurei gentilmente pelo ombro. Peguei alguns pedaços de pão, entreguei para ele, e disse:
– “Vai bem devagar, e joga o pãozinho para ele!”
Pé ante pé, os olhinhos fixos no passarinho, deixando escapar um sorriso de excitação, ele se aproximou do arisco bípede e jogou o pão em direção ao bicho. Este rapidamente se afastou com alguns pulinhos, então parou, se virou e,… suspense, será que… dois pulinhos em direção ao alimento, Tomaz segurando a respiração, mais dois pulinhos e, sim! pegou o pão com seu bico, deu uma mastigadinha e saiu voando!

- “Viu papai, viu, ele comeu o meu pão!”, meu passarinho exclamava, não cabendo em si de contentamento. Sua mãe deu um sorriso, o primeiro da manhã. Eu fiz um cafuné no meu intrépido ornitólogo, e, recolhendo os seus carrinhos da mesa, olhei para o céu carregado, para o mar de chumbo, para o olhar de cinzas de Izabel, para o menino que já ia longe e cantei, baixinho:

Passarinho volta-e-vai/Foi embora e não voltou/Meu menino ficou triste/Pasarinho voou (continua)

Alguém em João Pessoa

06/03/2011

1

Era o terceiro dia de chuva na praia. Chuvas intermitentes, o dia inteiro. O sol tentava sair entre as nuvens, esquentava um pouco, a chuva tornava a cair. Resolvi ficar na cama, e, preocupado se não conseguiria pegar no sono novamente, apaguei.

Acordei em cima da hora para o café, depois das dez retirado com uma eficiência surpreendente. Um funcionário do hotel passava de mesa em mesa perguntando se queríamos mais alguma coisa, estavam retirando o bufê. Quando você olhava, só tinha migalhas.

Apressando minha sonolenta família conseguimos novamente ser os últimos. Tomei minha terceira xícara de café preto no salão deserto, observando os círculos de pingos na piscina. A chuva voltou. O que fazer?

Bel e Tomaz não se importaram que eu fosse andar pela praia. Ele estava quebrando todos os recordes no jogo de corrida do celular dela, ela apreciando cada hora extra de sono.

De bermuda e celular me pus a caminhar. A praia, vazia, pouquíssima gente com coragem para encarar o tempo feio. Os pensamentos correram, antecipando atitudes adiadas. Ano novo, perrengues velhos. A decepção pela falta de vento pairava no ar. Soprei esta idéia para longe, os dias haviam sido ótimos para o Tomaz, a previsão dizia que o tempo ia melhorar.

Nos dois dias anteriores havíamos ido à uma das praias mais chocantes que já vi, a praia de Coqueirinho – PB. Uma criança na praia é como um pinto no lixo. Eu também. Passamos horas fazendo buracos, jogando bola, correndo das ondas, construindo pistas para seus carrinhos. A pázinha de plástico virou a Bessie, a máquina de asfaltar do Relâmpago McQueen. Eu alisava com ela um pequeno circuito na areia e pronto, lá estava nossa pista, palco de intermináveis corridas. Mas a fonte inesperada de alegria para o pequeno foi o hotel.

O Tambaú é um hotel redondo. São dois círculos concêntricos, separados por um grande jardim. Quando o adentramos pela primeira vez ele nos desnorteia, porque você pode chegar ao seu quarto indo para ambos os lados. O jardim tem vários caminhos e alamedas. O círculo interno concentra a área de serviços do hotel, no círculo externo estão os apartamentos. Começamos a fazer caminhos diferentes ao sair e ao chegar no quarto, eu dizia que eram os caminhos secretos, ele adorava, porque sempre havia alguma novidade. Sempre havia números diferentes.

Meu guri, um numerófilo selvagem, não se cansava de olhar as portas, ler e falar cada número de apartamento. Os apartamentos deste hotel tem números nas portas (uau) e, repetido, no alto do vão da dita cuja, estes iluminados por trás. Os apartamentos térreos tem também, à sua frente, pequenos postes iluminados com seus respectivos números. Devia ser comum achar hóspedes rodando à esmo em busca do quarto perdido, daí o esmero.

Outra peculiariedade é que a centena não corresponde ao andar. Não é possível, a partir do número do apartamento, descobrir em que andar ele está. O apartamento 107, o nosso, estava no segundo andar. Havia apartamentos 300 no térreo e no segundo andar, assim como os 400. Existe uma ala no terceiro andar onde encontramos alguns apartamentos 200. Para completar, alguns apartamentos estavam com as luzes dos números apagadas, outros não. Muitas variáveis, equações multi-diferenciais. Tomaz no País da Matemágica. Pensar que tudo começou com o contador de andares do elevador lá de casa. Do térreo ao décimo-sexto, dezessete símbolos piscando num painel de vidro. Toda sua vida. Será que se ele morasse num andar baixo ele teria se apaixonado igual pelos números?

O resultado dessa esbórnia numérica era que sempre que íamos sair eu precisava arrastar o menino que calculava, o passo incerto, perdido no paraíso matemático.
– “Papai, vamos ver os números diferentes?”
– “Papai, porque estes aqui estão apagados?”
– “Papai, qual é o ‘centos’?”

Todo o tempo segurando dois carrinhos, apostando corrida, a mão esquerda contra a mão direita. Pista parede, pista banco, pista mesa, pista corrimão, pista lisinha, pista pedra, pista quadradinhos, pista travesseiro, pista bolinhas, ‘pista’ tudo. Meu piloto… (continua)


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