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	<title>Blog do Fê</title>
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	<description>Por trás dos tambores também bate um coração.</description>
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		<title>Quarenta e uma horas para Nova Mutum</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Sep 2011 03:02:53 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Sábado, 11/06/11. Olha o onze aí…</p>
<p>07:30 hs &#8211; Acordei de um um sono de poucas horas, duas no máximo. Havíamos tocado na noite anterior em São Vicente-SP. Um bom show, mas eu vinha de uma noite de bebedeira na quinta, estava cansado e disperso. A casa onde tocamos tem a tradição de começar seus shows beeeeeem tarde. Tentamos antecipar nossa entrada, mas acabamos só conseguindo começar o show à uma e meia. Qdo o show acabou, um pouco depois das três da matina, eu estava me sentindo ótimo, adrenalinado, pronto para outro. Dormir assim, impossível. Pensei em começar o plano B, que é beber até apagar, mas estava enjoado de alcool. De qualquer forma levei uma garrafa de champanhe para o hotel. Porém, ao chegar ao quarto, guardei a garrafa na geladeira. Resolvi partir para o plano C: um banho quente e, com a coragem reservada aos grandes guerreiros do vazio, enfrentar a fritura nos lençois. Das sete e meia não passaria.</p>
<p>O hotel em São Vicente é o mesmo há anos, há anos não muda, só piora. O banho é péssimo, no meu caso uma ducha elétrica que produzia um fio d&#8217;agua morna. Para enfrentar o banho eu precisei fechar as janelas e ficar debaixo daquele mijo, tremendo até o banheiro esquentar com o vapor d&#8217;agua. No caso do Mamãe, eu fui saber depois, um chuveiro queimado deixou suas longas madeixas ruivas cheias de espuma numa noite fria, num quarto gelado, quinze minutos antes de sair para o show. Quem mandou ser guitarrista, … hum, perdão, cabeludo? Brincadeira, Mamãe! Tem hotel que ninguém merece.</p>
<p>O jantar também foi nobre. Liguei para a Recepção:<br />
- Recepção? Boa noite! Todo animado.<br />
- Pois não?<br />
- Vocês tem restaurante?<br />
- Temos sim senhor!<br />
Um belo prato de macarrão a bolonhesa, rápido e seguro, se materializou no ar. Mais animado:<br />
- Eu queria fazer um pedido…<br />
- Nós só servimos café da manhã, senhor.<br />
Eram nove horas da noite. Meu prato de macarrão virou no ar e caiu tudo, melecando a cama, o chão, o quarto todo.<br />
- Está um pouco cedo para o café, não? Ou seria um pouco tarde… O que o senhor acha? Muito, muito irritado.<br />
- Eu não sei, senhor…<br />
Inútil prosseguir com a ironia. Meu problema continuava. Depois não sabem porque os chamamos de Decepção.<br />
- Temos aqui na Recepção alguns folhetos de delivery… Todo prestativo.<br />
Fiquei decepcionado com o macarrão missão impossível e decidi escolher outro prato. Crasso erro.<br />
- Será que algum desses deliveris tem arroz com feijão e bife? Pensei no mais trivial, simples e brasileiro.<br />
- Sim, o senhor pode ligar no Au Bon Grudê que eles com certeza tem! Vou passar o número para o senhor! Muito, muito prestativo. Imaginei sua cabeça sendo servida numa bandeja, não fez muito bem ao meu apetite.</p>
<p>Assim aguardei as quentinhas do Au Bon Grudê. Arroz, feijão, bife, batata frita e salada. Não dá pra errar, eu pensei. Logo a campainha tocou, o moto-garçom entregou meu rango. Olha só, mandaram sal e azeite! Tirei a sorte grande, exultei, enquanto abria as quentinhas. Ué, só três? Tá, uma é pra salada, a outra deve ser das fritas, e… ué, não… eles não fizeram isso… enquanto abria nervosamente a terceira quentinha. Não, não… Mas era verdade. Lá estava, submerso no feijão, como que a tomar um refrescante banho de lama, o meu bife. CARACA! Filhos-da-mãe, porque fizeram isso, pra economizar uma quentinha? Tirei o bife pingando de feijão, frio já, e procurei um varal para pendurá-lo para secar. Não havia, claro. Pensei em pedir um ferro de passar, asssim dava mais uma passada naquela muxiba cinza…hum, quem sabe um secador de cabelo, hum… acabei deitando a fina iguaria no prato do jeito que veio ao mundo, um bife in.  Incolor, insalobro e indecente. Juntei um pouco da maçaroca que tinha se tornado o arroz-com-feijão, e, pensando na E. Coli ataquei a comida. Ataquei mesmo, porque precisei de coragem para comer a lavagem. Meu, que rango ruim. </p>
<p>Fiquei matutando porque um restaurante julgaria correto misturar o bife com o arroz-e-feijão. Estes dois tudo bem, podem até dividir uma quentinha, o arroz unidos-venceremos forma um bloco sólido numa das metades da quentinha, delimitando uma banheirinha para o feijão ralo. Agora, por um bife em cima disso? Porque, cargas d&#8217;agua… então fez-se a luz. Em algumas regiões da Pátriamada a carne numa refeição é conhecida também como mistura. Já que vai misturar tudo mesmo, dentro da barriga, porque não misturar antes, na quentinha? Metade do serviço já vem feito antes de comermos. Eficiência e praticidade, eis o nosso lema! Au Bon Grudê! Gororoba para as massas!</p>
<p>Como eu estava dizendo, sete e meia da manhã de sábado, 11/06/11. Olha o onze aí…. Com os olhos grudando cheios de remela, guardei na mala as roupas do show que tinha deixado secando. Joguei uma água nas minhas olheiras, percebendo que por trás delas ainda existia um rosto humano, ou pelo menos um rascunho. Mais pra borrão, mas enfim… Marchei para o café faltando dez minutos para as oito, o horário combinado de saída. Fui o primeiro a chegar, que bom, poderia comer com calma. Logo apareceram Yves e Fabiano:<br />
- Fê Lemos! o Yves me cumprimentou. &#8211; Não tá sabendo?<br />
- Vamos sair às dez, o Mamãe completou.<br />
- Nosso vôo está atrasado. O Lu não te avisou?<br />
- Ah, por isso que meu telefone tocou. Já tinha fechado a porta do quarto&#8230;<br />
Decidi tomar o café, sem tomar café, já que estava ali mesmo. Cereal, salada de frutas e uma torrada,  voltaria pro meu quarto e arrancaria mais uma hora e meia de sono.</p>
<p>10:05 hs &#8211; Sentindo aquela frustração de acordar justo quando o sono está começando a ficar bom, segui as luzes de emergência até o elevador. No lobby me protegi da terrível luz solar como um vampiro (uma dica) e sem olhar para o dia me aboletei no banco da van. Encostei a cabeça na janela, baixei meu chapéu sobre os olhos, o chapéu do sono mágico, talvez o melhor uso que um chapéu pode ter. Apaguei antes da van virar duas esquinas. Acordei no aeroporto de Cumbica, duas horas depois. Bendito sono, esse nem eu acreditei. Tirei da cartola. Hum, do chapéu barato da C&amp;A.</p>
<p>12:13 hs &#8211; O valoroso Binho nos recebeu:<br />
- O vôo está atrasado, não tem previsão. Descolei a sala VIP para vocês.<br />
A tropa insone marchou com seus cartões de embarque sem horário definido para a sala VIP do cartão Diners. Muito gentis, já que nenhum de nós tem o bendito cartão. Quando eu era criança o Diners era o único cartão que existia. Hoje é o único que eu não tenho.</p>
<p>Na sala VIP, vários passageiros com cara de tédio e longas horas de espera. Uma mulher dormia numa poltrona, algumas crianças olhavam para o pátio vendo o movimento dos aviões através dos vidros a prova de som. As baias de internet estavam todas cheias. Consegui uma poltrona e instalei meu laptop na mesinha em frente. A banda se espalhou, cada um procurando a melhor maneira de encarar uma espera que não tinha hora para acabar. O aeroporto estava lotado por causa dos atrasos que haviam acontecido em função das cinzas do vulcão chileno. Vôos com até dois dias de atraso estavam sendo remanejados. Mas eu estava tranquilo. O show era meia-noite, com certeza chegaríamos à tempo.</p>
<p>Resolvi esvaziar minha caixa de mensagens. Comecei pelos emails, revisando o que estava no Trash e apagando tudo que era inútil. Depois de responder todas as mensagens, inclusive as pendentes a vários meses, passei para o MySpace. Fazia um tempo que não entrava ali, havia um monte de mensagens também me esperando. Fui de uma a uma, lendo e respondendo tudo. Li até as letras que o Issacar me mandou&#8230; Quando não temos o que fazer, o tempo aparece. Sujeito engraçado, esse tal de tempo. Estamos sempre correndo atrás dele, perdendo ele, e ele só aparece quando a gente não precisa?</p>
<p>13:33 hs &#8211; A fome bateu. Larguei minhas coisas ali mesmo e fui atrás de uma pizza no Pizza Hut. Adoro a pizza de pepperoni. Tem alguns restaurantes onde eu peço sempre o mesmo prato, desde sempre e provavelmente até a eternidade. No America, nem olho o cardápio. É o Texas, desde a primeira vez que entrei na espelunca, nos idos de 86/87, quando inaugurou a primeira casa de rede, na Av. Nove de julho. O teto era curvo e tinha nuvens pintadas, imitando o céu. Eu achava tão moderno. Não me lembro de ter pedido um outro prato, nenhuma vez, em todos estes anos. Houve uma vez que eu comi dois seguidos. Inteiros. Hum, eu comeria um agora…</p>
<p>No Pizza Hut é a mesma coisa. Sempre a de pepperoni. No McDonalds, Big Mac. Toda a vez que tentei variar me arrependi. Acho que não vario porque como nesses lugares raramente. Deixo para experimentar pratos novos em restaurantes diferentes, ou nos tradicionais que eu frequento. Nestes não gosto de pedir o mesmo prato, vou explorando o menu. Mas confesso que existem pratos que nunca provei, como coelho, scargot, rã, mesmo carneiro, que comi apenas uma ou duas vezes. Acho que nunca serei um gourmet.</p>
<p>14:41 hs &#8211; De volta à sala. O Yves está saindo para comprar cerveja. Neste momento a nossa sala está desprovida de bebidas alcólicas.<br />
- Pera aí, eu tenho algo que você vai gostar!<br />
Vou até o balcão e peço a atendente a minha garrafa, que eu tinha deixado gelando desde a chegada ao nosso pit stop VIP. Ou vocês acharam que eu tinha esquecido a garrafa na geladeira em São Vicente?<br />
- Voilà! &#8211; e mostro ao incrédulo Yves uma garrafa de Veuve Clicquot gelada, suando, intacta.<br />
- Aí Fê Lemos! &#8211; meus amigos exultam,  por um breve momento sou o rei da sala VIP. Capto olhares invejosos de passageiros estressados. Copos de plástico cheios, a turma debanda novamente e eu retorno às redes sociais. No Facebook confiro a lista crescente de pesoas que querem ser meus amigos. Porque pessoas que nunca vi na vida querem ser meus amigos? Porque eu toco numa banda, deve ser. Não deve ser por causa dos meus longos cabelos e da barriga tanquinho. Eu gosto dos Rolling Stones mas nem por isso vou tentar ser amigo do Keith Richards. Eu vou ler seu livro e ouvir sua música. Talvez se um dia vier à conhecê-lo… O que é conhecer uma pessoa? Bater um papo de três frases e tirar uma foto com ela? Eu já fiz isso com a Rita Lee, mas não penso em pedir para ela me aceitar no FB dela. Ah, a ilusão que o mundo virtual criou, da conectividade universal. Estamos todos conectados e cada vez mais solitários.</p>
<p>Agora, no MySpace é diferente, ele existe para isso, para a gente se associar, estabelecer um vínculo com os artistas que a gente gosta. Não necessariamente conversar com eles, se não eles não fariam mais nada na vida. Mas para saber as novidades, lançamentos, datas de shows. Ou simplesmente pertencer ao clube. Eu pertenço ao clube dos Stooges, do Joy Division, do E-Z Rollers, do Nick Drake. Da Amy. Raramente entro ali para ver o que está acontecendo, mas isso é uma decisão minha. O que fazemos com nossas redes sociais são nossas assinaturas no mundo virtual, são nossas personalidades digitais. Nossos avatares. Estamos apenas engatinhando no século XXI. Falando nisso, seria legal voltar à postar as datas de shows no meu MySpace! Quem sabe começar a postar mais fotos também. Editar os vídeos seria incrível, tenho muito material inédito. Se o senhor Tempo der as caras. Ainda não foi dessa vez.</p>
<p>Até o MySpace morrer e ser sustituido por outra rede… E então fui olhar o Twitter. O Twitter é divertido. A fofoca eletrônica. Muito eficiente. Rapidamente milhares de pessoas são invadidas por qualquer bobagem que vc publique. Antigamente as pessoas precisavam se lembrar dos amigos. Agora eles pulam na sua frente, agitando bandeiras de conteúdo. Muito conteúdo.</p>
<p>16:06 hs &#8211; A garrafa de champs está vazia, no chão ao meu lado. O meu saco está no sentido contrário. Pedrão e Binho estão conversando num canto.<br />
- São quatro horas de ônibus do aeroporto de Cuiabá até Nova Mutum &#8211; diz o Binho.<br />
- Se a gente embarcar  até às cinco, dá tempo &#8211; pondera o Pedrão.<br />
- Vai ficar em cima, mas o contratante falou que podemos atrasar o show e começar lá pelas duas…<br />
- Confirmou o embarque? &#8211; eu pergunto.<br />
- Parece que sim. &#8211; responde Binho.<br />
- Saindo cinco e meia, uma hora e meia de vôo, mais quatro de bumba… ainda dá tempo de tomar um banho! &#8211; eu sorrio amarelo.<br />
Os dois me olham quietos. A corda está se rompendo.</p>
<p>17:14 hs &#8211; Finalmente vamos embarcar. Existe esperança, afinal. Mas, lá no fundo, a velha dúvida: isso é arte? Ou é apenas um negócio? Temos aquela noção que  um artista quando se apresenta ao vivo, está ali sob a influência e a regência da musa. Ele não é mais apenas um ser humano, ele é um veículo para a arte. Agora como ser artista depois de tanto perrengue? Enfim, as dúvidas desaparecem no calor do palco e na pressão do som. Marchamos como gado manso pelos corredores apinhados de nossos aeroportos chinfrins até o charuto voador.</p>
<p>18:01 hs &#8211; Estamos dentro do avião, mas as portas continuam abertas. Existe um zum-zum-zum no ar, de pessoas irritadas com as horas de espera em salas de embarque desconfortáveis, ansiosas para verem o avião decolar. Estou sentado na poltrona 2A, que, junto com a 2F, são os meus lugares marcados nos vôo do Capital Inicial. Bem próximo à porta. Para passar o tempo saco meu iPod e começo a jogar Freecell, o melhor jogo de paciência que existe. Mas não estou me sentindo muito paciente. Então abro o aplicativo GlowColoring. É um programa onde pintamos usando o dedo. Tanta tecnologia para voltar à fazer o que fazíamos quando crianças. Não suja as mãos de tinta. É virtualmente igual. O que pode ser radicalmente diferente. O bom era lambuzar as mãos de tinta&#8230; Mas o programinha é legal, e logo estava fazendo meus rabiscos de telefone, multicoloridos.</p>
<p>18:29 hs &#8211; O burburinho virou um burburão. Vários passageiros já sairam de suas cadeiras e estão em pé no corredor. Pessoas reclamam em voz alta, falam mal da TAM. Começa uma reclamação generalisada de fome. As comissárias explicam que não estão autorizadas a servir lanches em terra. Pedrão e Binho vão diversas vezes até a porta, para saber o motivo do atraso,  descobrem que é algum problema com a tripulação. Parece que está faltando um comissário. Olho para aquelas pessoas ansiosas, estressadas, alteradas, sofrendo. Contemplo meu primeiro desenho. Estou fechado num mundo paralelo, pensando em traços, formas e cores. O leve desespero me leva dali.</p>
<div id="attachment_277" class="wp-caption aligncenter" style="width: 330px"><a href="http://felemos.files.wordpress.com/2011/09/jungle.jpg"><img src="http://felemos.files.wordpress.com/2011/09/jungle.jpg?w=320&#038;h=480" alt="" title="Welcome to the Jungle" width="320" height="480" class="size-full wp-image-277" /></a><p class="wp-caption-text">Welcome to the Jungle</p></div>
<p>Hum, este desenho me lembra uma floresta, os raios do sol passando por entre a espessa folhagem, e… instantaneamente sou transportado para uma mata qualquer,  então estou num rio de planalto nos arredores de Brasília, água cristalina e gelada correndo entre pedras, a mata ciliar bloqueando o mundo exterior, o rio um universo à parte, vivo de sons e cheiros e movimentos e ui, topadas, explorando, procurando um poço quando…</p>
<p>18:37 hs &#8211; Começa a rebelião. Um passageiro vem do fundo do avião, falando em voz alta, cego de ódio e frustração. Vem empurrando todos que estão em pé no corredor.<br />
- Eu quero descer dessa merda! &#8211; ele grita, quando chega no alley, para os comissários ali em pé. Ops, o primeiro palavrão. Olho de rabo de olho. Começo meu segundo desenho.<br />
- Senhor, não podemos autorizá-lo descer, não é permitido passageiros esperarem na pista e …<br />
- Não quero nem saber! &#8211; o sujeito urra indignado. Estou esperando a seis horas, já perdi minha conexão, … a TAM vai pagar meu prejuízo? &#8211; ele esbraveja para comissárias constrangidas. Por um instante tenho a impressão que está saindo fumaça da cabeça do sujeito.<br />
- Senhor, temos a informação que o comissário faltante já está a caminho… &#8211; uma das comissárias fala sem muita convicção.<br />
O sujeito olha pela porta para fora do avião. Estamos no pátio, longe do prédio do aeroporto. Funcionários e comissários olham para o indignado com severidade. Ele se cala e volta para o fundo do avião.</p>
<p>18:46 hs &#8211; A reclamação de fome retorna com mais força. Alguns passageiros começam a falar em voz alta.<br />
- Libera logo essa comida! &#8211; Uma voz grita do fundo do avião.<br />
- Estamos aqui dentro à duas horas, já tô passando mal! &#8211; uma voz de mulher um pouco atrás de mim. Uma mulher gorda, se abanando com um exemplar de Caras.<br />
- É, cadê as balinhas! &#8211; uma voz do fundo, e risadas generalisadas. Olho as comissárias. Estão aflitas. Uma pega o interfone, conversa com alguém da tripulação.<br />
Logo, uma voz vem pelo sistema de som. Uma voz feminina.<br />
- Senhores passageiros, gostaria de informar que o comandante autorizou o serviço de bordo. Por favor, retornem aos seus assentos para podermos iniciá-lo.<br />
Em alguns minutos é servido um sanduba frio e bebidas. O pasto acalma o rebanho.</p>
<p>18:58 hs &#8211; Meu segundo desenho está pronto. Fico me perguntando como sei quando um desenho está pronto. São todos apenas conjuntos de traços, riscos, formas e cores. Quando parar é a principal dúvida. Sei lá, simplesmente sei. Acho que quando o conjunto sugere uma certa harmonia. Quando tenho a impressão que um pixel a mais é desnecessário, e dois a mais arruinariam o quadro. O quadro. Como se eu estivesse fazendo Arte Séria. Arte Culta. Pintando a Capela Sistina. Arte digna de Artistas. São apenas rabiscos de telefone. Porque você dedica tanto tempo à rabiscos? Porque não aprende uma profissão séria? Se liga, artista.</p>
<div id="attachment_278" class="wp-caption aligncenter" style="width: 330px"><a href="http://felemos.files.wordpress.com/2011/09/supermassive.jpg"><img src="http://felemos.files.wordpress.com/2011/09/supermassive.jpg?w=320&#038;h=480" alt="" title="Supermassive Black Hole" width="320" height="480" class="size-full wp-image-278" /></a><p class="wp-caption-text">Supermassive Black Hole</p></div>
<p>Hum, parece que houve uma explosão de natureza ainda desconhecida no coração da floresta. Uma onda de radiação se espalha na velocidade da luz pelo ecossistema, gerando uma mudança ainda imperceptível aos desavisados no código genético de todas as criaturas vivas do pedaço. Esta mudança, mutações no padrão do DNA-Implicante, induzirá uma lenta e gradual alteração em todo o povo da selva, culminando com eles finalmente deixarem de votar nos Sarneys, Barbalhos e assemelhados. Puta viagem.</p>
<p>19:07 hs &#8211; Pedrão e Binho estão em ligações constantes com o contratante em Nova Mutum e com nossos agentes. Nosso horário previsto de chegada, se o avião decolar nos próximos minutos, passou para as duas da manhã. No limite. Vamos direto para o recinto, sem passar pelo hotel. Mas, e a montagem? Pedro e Binho trocam olhares.<br />
- O palco está pronto, com o telão e as luzes montadas. Os cases já estão no palco também. É chegar e montar o nosso equipamento. Em meia hora, quarenta minutos, montamos tudo e fazemos o line-check. &#8211; pondera Binho.<br />
- Não vai dar pra passar o som. &#8211; eu digo.<br />
- A empresa de som já fez outros shows com a gente esse ano. Os nossos ajustes ficaram salvos na memória da mesa. &#8211; diz o Pedrão.<br />
- É… bem, já fizemos shows sem passar o som antes. &#8211; eu digo, imaginando a zona aural que vai se instalar nos meus ouvidos e, sabe-se lá como, eventualmente se transformar num show de rock. Eventualmente.<br />
- As primeiras músicas vão pro saco… &#8211; eu penso em voz alta. Baixo meus olhos, sinto minha energia entrar perigosamente na reserva. Começo o meu terceiro desenho.<br />
- A cidade está lotada esperando a gente. Foi o dia de maior venda de ingressos. É o sábado, o dia mais importante da Feira. O contratante não pode nem ouvir falar em cancelar o …<br />
O Pedrão é interrompido pela voz do comandante, no sistema de som.<br />
- Senhores passageiros, o comissário que faltava chegou… &#8211; Uma comoção se espalha por todo avião.<br />
- Demorou, gostosão! &#8211; alguém grita lá do fundo. Risadas, assovios. O comandante continua:<br />
- Mas agora eu preciso informá-los que por causa deste atraso nós ultrapassamos a carga horária prevista para o co-piloto, então precisaremos aguardar a troca deste tripulante também…<br />
- Tá de brincadeira! &#8211; um senhor careca de bigode exclama de uma poltrona próxima. O avião inteiro vira um grande buxixo de reclamações, risadas nervosas e palavrões.<br />
- Essa TAM é uma merda! &#8211; uma voz grita.<br />
- Decola logo essa porra! &#8211; mais uma voz cheia de raiva.<br />
O comandante, numa cabal demonstração de sensibilidade, fala a coisa errada, no lugar errado e na hora errada:<br />
- Senhores passageiros, eu gostaria de pedir aos senhores que se comportassem de acordo com as normas da decência e da boa educação, senão serei obrigado a chamar a polícia&#8230;<br />
Pra que. A baixaria se generalisou. Vai se foder, filho-da-puta, merda de TAM, todo mundo gritando.<br />
Começa um empurra-empurra na metade do avião. As pessoas em pé são espremidas para cima das poltronas. Um casal com um filho pequeno vem vindo em direção à porta, o marido esbravejando:<br />
- Chega! CHEGA! Eu quero descer! Que palhaçada é essa? Minha mulher tá grávida!<br />
O cara está ensopado de suor, com o rosto vermelho, as veias saltando no pescoço. Atrás dele vem um encabulado menino de uns seis anos, e sua esposa grávida, com o rosto pálido.<br />
- Senhor… &#8211; uma comissária tenta acalmá-lo.<br />
- Que senhor que nada! CHEGA! CHEGA! Não fico mais dentro dessa merda nem um segundo! Minha mulher tá grávida, entendeu? GRÁVIDA! E se ela perder o filho, o que que a TAM vai fazer? Hem? Vai mandar eu escrever uma Carta para o Presidente? HEM? HEM? &#8211; ele grita, possesso, quase pulando no pescoço da comissária.<br />
- O senhor não pode des… &#8211; ela tenta impedi-lo, mas ele se interpõe entre ela e a porta, puxa seu filho e mulher e rapidamente descem as escadas.</p>
<p>19:24 hs &#8211; Estou presenciando um motim no século XXI. Surreal. Um outro passageiro chega até a frente e começa um discurso, conclamando todos os passageiros a descerem e entrarem juntos com uma reclamação na ANAC. Parece um lider estudantil falando, chamando os companheiros à luta:<br />
- Se apenas poucos descerem, não conseguiremos nosso objetivo, e a TAM vai escapar impune dessa palhaçada! &#8211; ele gritava pra quem queria ouvir. Alguns passageiros se levantaram e seguiram o seu exemplo. Fez-se a merda. Não podíamos decolar antes de os passageiros que haviam descido terem suas malas retiradas do avião. O que exigiria a entrada em ação dos funcionários em terra, que carregam e descarregam o avião, a checagem do nome de cada mala… impossível.</p>
<p>19:33 hs &#8211; Depois de dez minutos intermináveis, a voz surge do além:<br />
- Senhores passageiros, aqui é  o comandante novamente. Gostaria de informar-lhes que este vôo está cancelado. Por favor queiram desembarcar e entrar em contato com nossa equipe em terra para as providências de praxe… &#8211;  CANCELADO! HA HA HA seus otários!  &#8211; </p>
<p>Só faltou isso.</p>
<p>20:01 hs &#8211; Alguns de nós nos sentamos no nosso bar mais ou menos secreto em Cumbica, esperando novas instruções. Vamos fazer o show? Quando? Cancela e devolve o dinheiro? As dúvidas são muitas, mas não sou eu que decido o meu destino nesses casos. Sou instruído por pessoas pagas para isso. Pedimos um chopp. Contemplo meu terceiro desenho.</p>
<div id="attachment_279" class="wp-caption aligncenter" style="width: 330px"><a href="http://felemos.files.wordpress.com/2011/09/a-star-is-born.jpg"><img src="http://felemos.files.wordpress.com/2011/09/a-star-is-born.jpg?w=320&#038;h=480" alt="" title="A Star is Born" width="320" height="480" class="size-full wp-image-279" /></a><p class="wp-caption-text">A Star is Born</p></div>
<p>Hum, parece as fotos que eu via nas revistas Astronomy do Flávio. Aglomerados. Berços de estrelas. Sóis novos entrando em ignição, começando a fusão nuclear que eventualmente transformará o elemento mais comum do universo, o Hidrogênio, em elementos mais pesados, como outros gases, Ferro, Carbono, e o resto. As estrelas são a semente da vida. Mas para os Jedis do Rock, praticamente treze horas presos à um universo paralelo de trânsito, espera, atrasos e expectativas frustradas, acabou o gás. Os goles calados de chopp da turma indicam que dessa vez o lado escuro da Força venceu.</p>
<p>20:19 hs &#8211; O Binho aparece:<br />
- Galera, ficou assim. Vamos fazer o show amanhã. É a última noite da Feira. Ia tocar uma atração regional que foi mudada para outro palco. O ingresso de hoje fica valendo para amanhã. Fazer outro dia fica impraticável. O contratante teria que montar um novo palco e mobilizar a mesma estrutura novamente, a gente ia ter que arrumar um buraco na agenda, enfim, não rola.<br />
- E então… &#8211; sem levantar meus olhos da tulipa.<br />
- Vocês tem que estar aqui amanhã às nove e meia da manhã. Boa noite, senhores!</p>
<p>20:29 hs &#8211; Acabo de digitar a senha do meu cartão de crédito. A perspectiva de uma noite de sono em casa é boa. Dar um beijo no meu filho, quem sabe eu ainda pego ele acordado. Posso vir de carro para o aeroporto e deixá-lo no estacionamento. Não tocarei mais sem banho, descanso e jantar. O show será num horário mais humano. Um grande problema será resolvido rapidamente. Há malas que vão pra Belém. Há males que vem para o bem. Sorrindo sem saber muito bem porque me dirijo ao ponto de táxi.</p>
<p>Domingo, 12/06/11 &#8211; Aniversário da Dibi &#8211; 21 anos! Parabéns, guria!</p>
<p>08:36 hs &#8211; Meu guri ainda está dormindo. Minha guria deve estar indo dormir. Um banho para encarar as várias horas de viagem à frente, uma torrada com suco de laranja, um último beijo no pequeno, em vinte minutos estou guiando para Cumbica. Trânsito livre, ar limpo. São Paulo domingo de manhã é um espetáculo raro para mim. Tudo fica como devia estar. Às nove e meia me encontro com a equipe, pego meu cartão de embarque e me dirijo rapidamente para a sala do dito cujo, ainda à tempo de fazer uma quick massage. </p>
<p>10:44 hs &#8211; O vôo decola com um pequeno atraso, sem nenhuma confusão, nenhuma superlotação, nenhuma aporrinhação. Não deve ser o mesmo país… Durmo praticamente o vôo todo, nem aprecio o suntuoso serviço de bordo.</p>
<p>12:21 hs &#8211; Pousamos em Cuiabá. Não está tão quente assim, afinal é inverno. Em uma rápida reunião decidimos almoçar no primeiro restaurante que encontrarmos saindo da cidade. Não sabemos o que vem pela frente, é melhor se garantir logo. </p>
<p>13:03 hs &#8211; A Nau dos Insensatos pára em uma churrascaria nos arredores de Cuiabá. O ambiente não permite sutilezas, mas a carne é excelente. Afinal, já que acabaram com as florestas daqui pra plantar boi, é bom que sejam bons mesmos. Os bois, claro, porque os homens bons se foram há tempos.</p>
<p>14:12 hs &#8211; Após muita picanha, maminha e fraldinha, e muitas cervejas também, disputo com a graxa um dos últimos exemplares de preciosos Chicabons. Nossos fiéis escudeiros me permitem a posse de um exemplar desta fina iguaria gelada, e brigam entre si para ver quem vai ficar com o Cornetto.<br />
De volta a bumba, não é a nossa Nave-Mãe, mas um veículo tipo quase-leito, alugado de uma empresa local. Tipo, os bancos quase deitam, quase tem travesseiro e cobertor, você quase viaja confortável e quase quer se matar depois de horas procurando inutilmente uma posição para dormir. Pelo menos a estrada não está uma lástima, até que rodamos macio. O problema são as carretas de soja, centenas, durante todo o percurso. Impossível andar a mais de sessenta. Ultrapassagens o tempo inteiro. Tartarugas de vinte toneladas ultrapassando cágados de trinta. E as lesmas lerdas atrás, sonhando com uma cama fixa e um travesseiro macio.</p>
<p>17:47 hs &#8211;  As pessoas olham para a bumba enquanto rodamos pela avenida principal de Nova Mutum, procurando o nosso hotel. Todos devem saber que somos nós que estamos chegando, o show adiado foi uma grande notícia local. Nova Mutum é baixa e espalhada, como todas as cidades do Centro-Oeste que surgiram ou cresceram nos últimos vinte anos, produtos do agro-negócio brasileiro. Poeira vermelha e pick-ups grandes.</p>
<p>17:59 hs &#8211; Finalmente chegamos. Uma mãe e sua filha nos aguardavam desde ontem. Queria lembrar o nome delas, mas agora, meses depois, apenas lembro que havia uma mãe e sua filha. A menina me deu de presente uma mini-bateria! Eu soube que, da banda, sou o preferido dela, e que ela começou a estudar bateria. Conversamos um pouco, dei dicas sobre praticar com a borracha de estudo antes de comprar uma bateria. Depois das fotos e de receber meu presente, agradeci o carinho das duas gerações ali representadas. É a maior recompensa que podemos encontrar nestes lugares perdidos deste imenso país. Eu sei também que elas nunca se esquecerão daquele momento. Eu, talvez.</p>
<p>18:18 hs &#8211; Da varanda do meu quarto olho para Oeste. Os últimos raios de sol iluminam um quarto amplo, novo e mal-decorado. Pelo menos as janelas tem cortinas. Fecho-as, deito em lençois limpos, o ar-condicionado em 23 ºC, procuro algum futebol na tv. Minha cabeça está vazia, meu coração intranquilo e as razões para essa epopéia, embora claras, me parecem cada vez mais esgarçadas. O paradoxo, o amor à estrada versus a crescente vontade de quietude. Mas será quietude? Ou será uma outra estrada? Não tem nenhum jogo passando. Vendo algum programa sobre animais da savana africana tento encontrar algum descanso antes de jantar. </p>
<p>Segunda-feira, 13/06/11</p>
<p>00:30 hs &#8211; Mais um palco, mais uma platéia, mais um momento de exorcizar os demônios da dúvida e da incerteza com a precisão e o peso do rock&#8217;n'roll. Quarenta e uma horas depois, Nova Mutum não será mais a mesma. E ninguém será mais tão jovem assim.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/felemos.wordpress.com/276/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/felemos.wordpress.com/276/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/felemos.wordpress.com/276/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/felemos.wordpress.com/276/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/felemos.wordpress.com/276/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/felemos.wordpress.com/276/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/felemos.wordpress.com/276/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/felemos.wordpress.com/276/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/felemos.wordpress.com/276/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/felemos.wordpress.com/276/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/felemos.wordpress.com/276/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/felemos.wordpress.com/276/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/felemos.wordpress.com/276/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/felemos.wordpress.com/276/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=276&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Supermassive Black Hole</media:title>
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			<media:title type="html">A Star is Born</media:title>
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		<title>Trinta e seis horas para Mutum &#8211; parte 1</title>
		<link>http://felemos.wordpress.com/2011/07/05/trinta-e-seis-horas-para-mutum/</link>
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		<pubDate>Tue, 05 Jul 2011 05:42:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felemos</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Sete e meia da manhã de sábado, 11/06/11. Olha o onze aí… Acordei de um um sono de poucas horas, duas no máximo. Havíamos tocado na noite anterior em São Vicente-SP. Um bom show, mas eu vinha de uma noite de bebedeira forte na quinta, estava cansado e disperso. A casa onde tocamos tem a tradição de começar seus shows beeeeeem tarde. Tentamos antecipar nossa entrada, mas acabamos só conseguindo começar o show à uma  e meia. Qdo o show acabou, um pouco depois das três da matina, eu estava me sentindo ótimo, adrenalinado, pronto para outro. Dormir assim, impossível. Pensei em começar o plano B, que é beber até apagar, mas estava enjoado de alcool. De qualquer forma levei uma garrafa de champanhe para o hotel. Porém, ao chegar no quarto, guardei a garrafa na geladeira. Resolvi partir para o plano C: um banho quente e, com a coragem reservada aos grandes guerreiros do vazio, enfrentar a fritura nos lençois. Das sete e meia não passaria.</p>
<p>O hotel em São Vicente é o mesmo há anos, há anos não muda, só piora. O banho é péssimo, no meu caso uma ducha elétrica que produzia um fio d&#8217;agua morna. Para enfrentar o banho eu precisei fechar as janelas e ficar debaixo daquele mijo, tremendo até o banheiro esquentar com o vapor d&#8217;agua. No caso do Mamãe, eu fui saber depois, um chuveiro queimado deixou suas longas madeixas ruivas cheias de espuma numa noite fria, num quarto gelado, quinze minutos antes de sair para o show. Quem mandou ser guitarrista, … hum, perdão, cabeludo? Brincadeira, Mamãe! Tem hotel que ninguém merece.</p>
<p>O jantar também foi nobre. Liguei para a Recepção:<br />
- Recepção? Boa noite! Todo animado.<br />
- Pois não?<br />
- Vocês tem restaurante?<br />
- Temos sim senhor! Um belo prato de macarrão a bolonhesa, rápido e seguro, se materializou no ar. Muito animado:<br />
- Eu queria fazer um pedido…<br />
- Nós só servimos café da manhã, senhor.<br />
Eram nove horas da noite. Meu prato de macarrão virou no ar e caiu tudo, melecando a cama, o chão, o quarto todo.<br />
- Está um pouco cedo para o café, não? Ou seria um pouco tarde… O que o senhor acha? Muito melecado.<br />
- Eu não sei, senhor…<br />
Inútil prosseguir com a ironia. Meu problema continuava. Depois não sabem porque os chamamos de Decepção.<br />
- Temos aqui na Recepção alguns folhetos de delivery… Todo prestativo.<br />
Fiquei decepcionado com o macarrão missão impossível e decidi escolher outro prato. Crasso erro.<br />
- Será que algum desses deliveris tem arroz com feijão e bife? Pensei no mais trivial, simples e brasileiro.<br />
- Sim, o senhor pode ligar no Ao Bom Grudê que eles com certeza tem! Vou passar o número para o senhor! Muito prestativo. Imaginei sua cabeça sendo servida numa bandeja, não fez muito bem ao meu apetite.</p>
<p>Assim aguardei as quentinhas do Ao Bom Grudê. Arroz, feijão, bife, batata frita e salada. Não dá pra errar, eu pensei. Logo a campainha tocou, o moto-garçom entregou meu rango. Olha só, mandaram sal e azeite! Tirei a sorte grande, exultei, enquanto abria as quentinhas. Ué, só três? Tá, uma é pra salada, a outra deve ser das fritas, e… ué, não… eles não fizeram isso… enquanto abria nervosamente a terceira quentinha. Não, não… Mas era verdade. Lá estava, submerso no feijão, como que a tomar um refrescante banho de lama, o meu bife. CARACA! Filhos-da-mãe, porque fizeram isso, pra economizar uma quentinha? Tirei o bife pingando de feijão, frio já, e procurei um varal para pendurá-lo para secar. Não havia, claro. Pensei em pedir um ferro de passar, asssim dava mais uma passada naquela muxiba cinza…hum, quem sabe um secador de cabelo, hum… acabei deitando a fina iguaria no prato do jeito que veio ao mundo, um bife <em>in</em>.  Incolor, insalobro e indecente. Juntei um pouco da maçaroca que tinha se tornado o arroz-com-feijão, e, pensando na <em>E. Coli</em> ataquei a comida. Ataquei mesmo, porque precisei de coragem para comer a lavagem. Meu, que rango ruim. </p>
<p>Fiquei matutando porque um restaurante julgaria correto misturar o bife com o arroz-e-feijão. Estes dois tudo bem, podem até dividir uma quentinha, o arroz unidos-venceremos forma um bloco sólido numa das metades da quentinha, delimitando uma banheirinha para o feijão ralo. Agora, por um bife em cima disso? Porque, cargas d&#8217;agua… então fez-se a luz. Em algumas regiões da Pátriamada a carne numa refeição é conhecida também como mistura. Já que vai misturar tudo mesmo, dentro da barriga, porque não misturar antes, na quentinha? Metade do serviço já vem feito antes de comermos. Eficiência e praticidade, eis o nosso lema! Gororoba gourmet! <em>(Continua)</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/felemos.wordpress.com/259/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/felemos.wordpress.com/259/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/felemos.wordpress.com/259/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/felemos.wordpress.com/259/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/felemos.wordpress.com/259/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/felemos.wordpress.com/259/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/felemos.wordpress.com/259/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/felemos.wordpress.com/259/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/felemos.wordpress.com/259/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/felemos.wordpress.com/259/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/felemos.wordpress.com/259/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/felemos.wordpress.com/259/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/felemos.wordpress.com/259/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/felemos.wordpress.com/259/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=259&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Além do Farol tem um Porto &#8211; final</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Jun 2011 04:14:57 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Fátima estava de olhos fechados, de cabeça baixa. Seus lábios murmuravam palavras inaudíveis. A vela panejava, o barco apontado contra o vento não se movia. Reizinho terminou a prece, nos olhamos. Todos sabíamos, sem dizer, que estávamos vivendo um momento muito especial. Eu sei que nunca mais vou me esquecer daquele instante, eu que tenho [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=256&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fátima estava de olhos fechados, de cabeça baixa. Seus lábios murmuravam palavras inaudíveis. A vela panejava, o barco apontado contra o vento não se movia. Reizinho terminou a prece,  nos olhamos. Todos sabíamos, sem dizer, que estávamos vivendo um momento muito especial. Eu sei que nunca mais vou me esquecer daquele instante, eu que tenho a pior memória do mundo. Eu estava no lugar certo, na hora certa, no dia certo, com um sujeito chamado Rei e uma mulher chamada Fátima. Muito, muito raro. Com um beijo deitei minha oferenda ao mar. Fátima fez o mesmo. Durante alguns minutos acompanhamos as flores serem levadas pelas mãos da Rainha. O sol tocou o horizonte.</p>
<p>- &#8220;Vou dar um mergulho!&#8221;, eu disse. Reizinho me perguntou se eu sabia nadar. Fátima olhava sem dizer nada.<br />
- &#8220;Muito bem, não se preocupe!&#8221;, enquanto entrava n&#8217;agua lentamente, me apoiando na lateral do barco, para não balançá-lo. Um banho de mar, longe da costa, é uma experiência indescritível. Boiando, eu subia e descia com as vagas, então dei braçadas vigorosas me afastando do barco, mergulhei e subi novamente, eu estava completamente rodeado de mar, a própria gota d&#8217;água no oceano, o grão de areia… Caramba, aqui deve ser muito fundo, trinta, quarenta metros!… A água de um verde escuro, impenetrável, agora que o sol se pôs, meu, que maravilha poder nadar aqui, na água mais pura, água quente da Bahia, esse ar puro, esse vento, e… ué, cadê o barco?… Ah, lá está ele… Ei, o Reizinho tá de pé… Putz, parece que tá meio longe… Como assim?</p>
<p>Conseguia ver o barco na subida das vagas. Na descida ele desaparecia. Hum, … ah, entendi. Enquanto nadava o vento empurrou o barco pra outra direção, pra longe de mim. O barco com a vela panejando não segue em frente, mas continua sendo empurrado pelo vento. Básico. Bem, agora o básico é que você vai nadar um bocado, marinheiro de primeira viagem. Não adianta se afobar. Nem entrar em pânico. A respiração é tudo. Uma respirada a cada três braçadas, assim respiramos alternando o lado da cabeça para fora d&#8217;agua… Respirar em três favorece o equilíbrio… Hum, entrou água no ouvido direito… Hum, agora no esquerdo… Melhor no ouvido que no nariz… Lembre-se de esticar os braços quando for dar a braçada… Mantenha as pernas batendo, não deixe o quadril afundar… Hum, melhor dar uma parada para conferir a direção… O barco está mais próximo? Hum, não sei… A noite está, com certeza… Não, com certeza o barco está um pouco mais próximo… Hum, será?… Hum, eu tinha certeza que tinha nadado o suficiente… Hum, foi bom, mas não o suficiente… Assim como a vida, né, cara?… Aumenta a pressão…  Calma, cara, não pode perder o ritmo… a respiração… é, mas isso aqui não é uma piscina…  eu estou nadando no mar… mar aberto… eu estou nadando contra o tempo… o tempo… está ficando escuro… noite… é a hora em que muitos animais saem em busca de alimento…. alimento… no mar, ou você come ou é comido… comida… tubarões… mas não estou em Boa Viagem… Boa viagem, cara… Pára com isso… Você está perdendo o ritmo cara, calma… Preciso por pressão, o barco tá se afastando… Caraca… caraca … CARACA! </p>
<p>Assim, muitas mais braçadas depois, finalmente alcancei o barco.<br />
- &#8220;Tava ficando preocupado, rapaz…&#8221;, meu capitão disse, enquanto me ajudava a subir no barco:<br />
- &#8220;Quase fui lá te pegar…&#8221;<br />
- &#8220;Tava… tudo sob controle…&#8221;, eu respondi, ofegante. Fátima me olhava com o rosto levemente inclinado:<br />
- &#8220;Você foi longe, hem menino?…&#8221;<br />
- &#8220;Nem percebi… o vento levou o barco… tava tão boa a água que nem vi…&#8221;, eu me desculpei. Sem perder um segundo, ajudei Reizinho a caçar a vela, ele empurrou o leme, entramos no vento, cambamos e apontamos a proa para a praia.</p>
<p>O barco rasgava a água com a última brisa do dia. Estávamos em silêncio. A Bahia é tão generosa que, molhado, ao vento, sem camisa, não sentia frio. Sentia uma euforia contida e uma paz imensa. Sentia que havia encontrado um lugar, um porto seguro. Sentia que poderia atravessar um oceano, e descansar à sombra. Seria nesta direção o caminho do meio? Enquanto contemplava as possibilidades e me admirava das probabilidades, do nada, sem pedir licença, como uma nuvem negra num céu de estrelas, apareceu uma tristeza. Porque, porque, porque num momento tão feliz como aquele eu ainda podia encontrar tristeza? Lutei contra ela, culpei meus genes, culpei minha educação, culpei o escambau, mas, lentamente, lá no fundo eu acho que consegui entender porquê. </p>
<p>Aquele momento tão real, intenso e verdadeiro não existia mais. Acabara de se tornar uma lembrança, naquele instante ainda vívida, cheia de cor, cheiro e sabor. Mas com o passar dos dias, meses, anos, com o acúmulo e repetição de tudo que nos engana e que chamamos de vida, aquele momento iria lentamente se desfazer na memória, se fragmentar, como todas as (poucas) memórias que sobraram dos meus anos de ouro em Brasília, hoje pálidas sombras da aventura e da descoberta que foram. Vivemos vidas em 3D FullHD com som Dolby 5.1 e o que sobra são trailers em preto e branco. Mudos. Nos piores casos, chegamos ao ponto de duvidar que aqueles momentos realmente existiram, duvidamos da nossa própria vida. </p>
<p>Não é sempre assim? A infância perdida, as férias maravilhosas, a última dose do junkie, aquela trepada com a mulher cobiçada, o último show? Não sentimos uma estranha angústia porque quando finalmente conseguimos aquilo que mais queríamos, que desejávamos ardentemente, que movemos céu e terra para obter, sem querer vislumbramos também o seu fim?</p>
<p>Um computador tem a memória perfeita, então ele não se recorda, ele vive de novo tudo aquilo que guardou, em todos os ínfimos detalhes. Afinal, o diabo está nos detalhes. Nós, humanos patéticos, começamos esquecendo justamente deles, os detalhes. Mas, computador não vive. Tem algum aí lendo isso aqui? Robot Rock? Humans, after all. Então, já que não tem outro jeito, vou fazer tudo de novo! </p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/felemos.wordpress.com/256/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/felemos.wordpress.com/256/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/felemos.wordpress.com/256/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/felemos.wordpress.com/256/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/felemos.wordpress.com/256/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/felemos.wordpress.com/256/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/felemos.wordpress.com/256/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/felemos.wordpress.com/256/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/felemos.wordpress.com/256/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/felemos.wordpress.com/256/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/felemos.wordpress.com/256/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/felemos.wordpress.com/256/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/felemos.wordpress.com/256/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/felemos.wordpress.com/256/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=256&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Além do Farol tem um Porto &#8211; parte 6</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Jun 2011 06:58:37 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Os olhos no horizonte, a cabeça nas nuvens, eu pensava nas coincidências, no timing perfeito. Se alguma das dezenas de coisas que aconteceram antes de eu chegar ali tivesse durado um minuto a mais, ou a menos, ou simplesmente não tivesse acontecido, eu não estaria naquele barco. Eu cruzei com o Reizinho no exato momento [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=251&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os olhos no horizonte, a cabeça nas nuvens, eu pensava nas coincidências, no timing perfeito. Se alguma das dezenas de coisas que aconteceram antes de eu chegar ali tivesse durado um minuto a mais, ou a menos, ou simplesmente não tivesse acontecido, eu não estaria naquele barco. Eu cruzei com o Reizinho no exato momento em que ele ia levar sua amiga para fazer a oferenda. Um minuto depois não teríamos nos cruzado naquele corredor entre as canoas.  O Dingue estaria dentro d&#8217;agua enquanto eu estaria me dirigindo à guarderia. Um minuto antes, bem talvez eu ainda recebesse o convite, mas, mas… o sol estava tão próximo ao horizonte! O veleiro ganhava velocidade, à nossa frente alguns rochedos.<br />
- &#8220;Quem veleja aqui e não conhece, se assusta, tenta contornar&#8230;&#8221;, ele disse.<br />
- &#8220;Mas não é necessário…&#8221;, acrescentou, enquanto apontava o barco diretamente para o bloco de pedras que se erguia ameaçadoramente à nossa frente. Cada vez mais próximo, olho para o capitão, preocupado, ele mantém o leme firme. Então, como se alguém estivesse empurrando um cenário numa grande produção de teatro, as pedras lentamente movem-se para o lado, o barco passa rente à elas,  logo estamos no mar aberto. A experiência de quem sabe que o vento e as correntes não nos levam em linha reta.</p>
<p>As ondas agora são grandes, vagas que se formaram em alto-mar. Nosso timoneiro ajusta a proa de modo a entrarmos nas maiores sempre de frente, para controlar o balanço do barco. Recebo algumas ordens, para baixar a bolina e soltar um pouco a vela. Pareço um guri que acabou de ganhar um brinquedo novo.<br />
Olho para o outro passageiro. A preocupação sumiu do seu rosto, ela está curtindo o velejo.<br />
- &#8220;Olá, não nos apresentamos… meu nome é Felipe, … pode me chamar de Fê.&#8221;<br />
- &#8220;Olá, Fê…&#8221; Os olhos cruzam os meus,  se encontram com o de seu capitão,  se perdem no horizonte.<br />
- &#8220;Meu nome é Fátima!&#8221;<br />
Eu deveria ter adivinhado. O sorriso estatelado no meu rosto a surpreende.<br />
- &#8220;O que foi, você conhece alguma Fátima?&#8221;, ela pergunta, enquanto o barco desce uma onda maior, ao entrar na &#8216;subida&#8217; levanta um borrifo d&#8217;agua, que nos molha levemente. Ela dá um pequeno grito.<br />
- &#8220;Não, …. bem, na verdade, … sim, …. mas deixa pra lá, … é uma longa história…&#8221;, minhas palavras acompanhavam o balanço do barco. Olhei-a com um olhar distante, que encerrou o assunto. Não queria falar que toco numa banda, que sou &#8216;famoso&#8217;. Ali eu era apenas um passageiro num barco, é o que todos somos. Somos todos passageiros no mesmo barco, Gaia, e nos fazemos de gaiatos. </p>
<p>Lembrei da Fátima de carne e sangue, de trinta e cinco anos atrás, seu beijo me despertou para a vida boa. Lembrei de Fátima, a canção de trinta anos atrás, a passageira que nunca faltou à um show sequer. Esta Fátima nos lembra que os homens são maus. Os dois lados, de novo. Dentro de nós carregamos a semente da vida e o poder da destruição. Divagando de novo…  Fátimas imaginárias, renascendo e morrendo, em cada beijo, em cada show, em cada perfídia da humanidade… Logo uma vaga as mandou de volta ao inconsciente. A Fátima de verdade esticou suas pernas, olhou para cima, deixou a cabeça pender para trás, fechou os olhos… recebeu o vento no rosto,  a brisa a desarrumar seus cabelos.</p>
<p>Olhei para trás em direção à praia, distante, além dos rochedos. A vista era deslumbrante, a faixa de areia uma linha dourada se estendendo ao infinito, os coqueiros, a colônia, Salvador à oeste, na direção de um sol laranja que lançava seus últimos raios sobre o mar.<br />
- &#8220;É aqui o lugar!&#8221; Reizinho exclamou. Manobrou o barco de modo que a proa ficou de frente para o vento. Então perguntou se nos importávamos se ele fizesse uma prece, em voz alta. Em alto-mar, a autoridade de um capitão é absoluta. Ele pode casar, prender, mandar andar pela prancha. Deixá-lo fazer a prece pareceu-me apropriado e digno. Enquanto ouvia suas palavras eu tentei me lembrar de todas as pessoas queridas, desejando-lhes sorte e saúde. Então ele lembrou que devemos perdoar também nossos inimigos. Quem será que eles são, eu pensei, então soube, soube que certas feridas irão cicatrizar com o tempo, se houve injustiças elas serão reveladas, se houve trapaças elas serão desmascaradas, o que cada um plantou será sua colheita. <em>(continua)</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/felemos.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/felemos.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/felemos.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/felemos.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/felemos.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/felemos.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/felemos.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/felemos.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/felemos.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/felemos.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/felemos.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/felemos.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/felemos.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/felemos.wordpress.com/251/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=251&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Além do Farol tem um Porto &#8211; parte 5</title>
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		<pubDate>Sat, 21 May 2011 21:52:32 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Caminhei em direção ao oeste. O sol estava baixo, em pouco menos de uma hora seria noite. Passei pelos arcos do Farol de Itapuã. Uma foto vale mil palavras… Após o Farol atravessei três praias antes de chegar a Colônia. Praias pequenas, separadas entre si por trechos de pedra. Caminhando contra o sol minha visão [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=234&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caminhei em direção ao oeste. O sol estava baixo, em pouco menos de uma hora seria noite. Passei pelos arcos do Farol de Itapuã. Uma foto vale mil palavras…</p>
<div id="attachment_241" class="wp-caption aligncenter" style="width: 460px"><a href="http://felemos.files.wordpress.com/2011/05/farol1.jpg"><img src="http://felemos.files.wordpress.com/2011/05/farol1.jpg?w=450&#038;h=298" alt="" title="Farol de Itapuã" width="450" height="298" class="size-full wp-image-241" /></a><p class="wp-caption-text">Farol de Itapuã</p></div>
<p>Após o Farol atravessei três praias antes de chegar a Colônia. Praias pequenas, separadas entre si por trechos de pedra. Caminhando contra o sol minha visão estava prejudicada. O brilho intenso me ofuscava, de certa forma eu seguia sem enxergar muito bem. A caminhada me pareceu mais longa do que realmente foi, como se eu estivesse andando em círculos, ou numa densa neblina, a ansiedade de chegar tornando cada passo mais pesado e cada quilômetro mais longo. Já se encontrou perdido, tateando o caminho, tentando controlar aquele sentimento que insiste em te dizer que não sairá desta, que este caminho não vai te levar à parte alguma, uma sensação de desconforto e desesperança, passos errando rumo ao vazio? Pois é.</p>
<p>Então a praia alargou. O ar mudou. Eu estava num lugar especial. Havia alguma coisa naquele lugar, uma boa vibração. Era definitivamente diferente das praias que eu havia passado. A luz fosca e embaçada que me aturdiu durante meu caminho subitamente clareou, definindo os contornos e as formas do que antes era bruma. Pessoas se espalhavam pela areia, aproveitando o sol do fim da tarde. Passei por duas mulheres, negras como carvão, deitadas na areia. Eram grandes, ombros largos, pernas fortes e longas, biquinis minúsculos. Não vi seus rostos. Havia uma força poderosa, o lado bom da Força, protegendo-as, e àquele lugar. Adiante encontrei famílias, todos negros, mães e filhos, brincando, falando alto, em casa. No limite da areia com as árvores, algumas casinhas, garagens para barcos, uma igreja antiga linda.</p>
<p>http://www.portaldeitapua.com/cultura.html</p>
<p>Eu era um intruso, mas não senti perigo. Na verdade, estava encantado pelo lugar. Caminhei um pouco sem direção, olhando, absorvendo, sentindo uma paz e tranquilidade diferentes, inesperadas. Havia alguns barcos n&#8217;água, outros na areia. Não vi nenhum que parecesse estar de saída. Perguntei para uma senhora que estava com algumas crianças:</p>
<p>- &#8220;Por favor, vai sair algum barco com oferendas?&#8221;<br />
- &#8220;Ih, meu filho, já foi e já voltou…&#8221;, o sotaque baiano carregado, me olhou com um olhar curioso. Um branquelo segurando um mini-buquê de flores do campo, vestindo uma bermuda fashion da Quicksilver e uma argola de pirata na orelha.<br />
- &#8220;Ahn…&#8221;, eu murmurei, desapontado.<br />
Uma garota, lá pelos seus doze anos, deu uma risada e disse:<br />
- &#8220;Joga ali…!&#8221;, e apontou para o mar, a alguns passos de nós.<br />
É claro, né mané.<br />
- &#8220;Hum, tudo bem… é que… eu achei um lugar um pouco mais lá atrás, …acho que vou jogar lá…é um pedaço bonito da praia…&#8221;, e olhei para ela meio encabulado.<br />
- &#8220;Aqui tudo é bonito!&#8221;, ela falou, os dentes brancos enfeitando um sorriso de sangue e carvão.<br />
- &#8220;Aqui tudo é lindo…&#8221;, eu disse, e baixei os olhos. Agradeci e segui o sol.</p>
<p>Alguns passos adiante encontrei vários barcos lado à lado na areia, canoas de pesca. Suas cores gritavam, refletindo a luz de um sol quase poente. Arrependido por não ter trazido meu celular-câmera corri meus olhos de barco em barco, notando suas formas, equipamentos, combinações de cores, cada um único, suas histórias marcadas nas lascas e arranhões dos cascos… quando, entre as naus meu olhar capturou uma placa: &#8220;Aluga-se veleiros, Windsurf. Aulas de kitesurf. Procurar Reizinho.&#8221; </p>
<p>O QUÊ?!?!?! Desacreditei por completo. Ali, nas minhas barbas, próximo ao hotel onde já fiquei tantas vezes, em tantos anos, dá pra velejar? Tem aluguel de equipamento? Caraca. Um arrepio congelou os ossos. A cadeia de eventos que me levou até ali rodava na minha cabeça. Segui entre as canoas por um caminho que levava à guarderia, que é apenas o lugar onde os velejadores guardam seu equipamento. Montar as velas, embora fácil, não é necessário cada vez que vamos velejar, se temos como deixá-las montadas, para isso uma guarderia. Também é onde guardamos nossas pranchas, trocamos de roupa e batemos papo. Queria informações, ver que pranchas e velas eles tinham, se eram pra velejador mesmo ou pra turista, quando vi um grupo de pessoas vindo em sentido contrário. À frente um senhor, um pouco mais velho do que eu, eu supus, a pele curtida de sol, os cabelos queimados, amarelados. Sem camisa, nenhuma gordura aparente, pele e músculos apenas. Magro e forte. Quando o vi, ele já estava com os olhos fixos em mim, caminhando na minha direção. Dizem que quando a gente vê um tubarão ele já viu a gente muito antes. De alguma maneira eu sabia que era ele. Decidi arriscar:</p>
<p>- &#8220;O senhor é o Reizinho, não?&#8221;<br />
- &#8220;Sim&#8230;&#8221; A voz com a calma baiana. Nenhuma surpresa em eu ter acertado quem ele era. Será que ele estava me esperando? Olhos claros me olhavam com serenidade.<br />
- &#8220;Puxa, aqui tem aluguel de wind…?&#8221; eu estava emocionado.<br />
- &#8220;Tem sim, meu rei… Tem aula também…&#8221; Ele viu o buquê.<br />
- &#8220;Você veio por Iemanjá?&#8221;<br />
- &#8220;Sim, eu soube que sai um barco, mas parece que cheguei tarde…&#8221;<br />
- &#8220;Hum, quem sabe…&#8221;, me olhou de novo, desta vez notei um sorriso quase imperceptível. Parecia saber de algo que eu não sabia.<br />
- &#8220;Você tem medo de barcos?&#8221;<br />
- &#8220;Eu?…  Ué, eu não… porque teria?! …Quando eu era garoto e morei em ….&#8221; ele me interrompeu:<br />
- &#8220;Então, meu rei, me dê uma forcinha aqui!&#8230;&#8221;, me levou até um barco que estava na areia, próximo à agua. Era um Dingue.</p>
<div id="attachment_243" class="wp-caption aligncenter" style="width: 260px"><a href="http://felemos.files.wordpress.com/2011/05/dingue1.jpg"><img src="http://felemos.files.wordpress.com/2011/05/dingue1.jpg?w=250&#038;h=188" alt="" title="Dingue" width="250" height="188" class="size-full wp-image-243" /></a><p class="wp-caption-text">Um veleiro Dingue</p></div>
<p>O Dingue é um veleiro um pouco maior que o Laser, leva quatro pessoas sem aperto. É um projeto de um brasileiro, eu vim saber depois. O dele era de madeira, antigo, muito bem conservado. Precisava de ajuda para colocar o barco n&#8217;agua.<br />
- &#8220;Então, pegue desse lado aí, que eu fico aqui. Você, minha querida, pode empurrar aí atrás…&#8221;, então eu vi que ele estava acompanhado de uma senhora. Uma mulher de seus trinta e alguns anos, talvez quarenta. Bonita, beleza baiana. Cabelos negros, branca, queimada de sol. Ela carregava um buquê também, uma dúzia de rosas vermelhas, que colocou dentro do barco. Deixei o meu espetado na areia.<br />
- &#8220;Eu vou contar até três, tá certo?… Um, dois, três… Vai!&#8221;, com um empurrão o barco estava dentro d&#8217;agua. Segurei o veleiro enquanto Reizinho ajudava sua amiga a entrar à bordo.<br />
Comecei a me afastar, quando ouvi ele dizer:<br />
- &#8220;E então, meu rei, não vai subir?&#8221;, um sorriso de Mona Lisa.<br />
O meu sorriso era o do gato da Alice.<br />
- &#8220;Mas, mas… não vou atrapalhar?&#8221;, enquanto corria e pegava minha oferenda das areias de Itapuã. Lancei um olhar para a senhora, que se segurava na borda do convés, aflita com o balançar do barco. Com cuidado entrei à bordo, tentando não balançá-lo mais que o necesssário.<br />
- &#8220;Isso, sente mais aí a frente… Agora, pegue esta corda aí nos seus pés e puxe ela um pouco, devagar…&#8221;<br />
Cacei a vela, ela se encheu de vento. Com um último empurrão ele pulou para dentro do barco, pegou a barra do leme e dali em diante estávamos sob o domínio dos ventos e das ondas. Estávamos velejando. <em>(continua)</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/felemos.wordpress.com/234/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/felemos.wordpress.com/234/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/felemos.wordpress.com/234/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/felemos.wordpress.com/234/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/felemos.wordpress.com/234/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/felemos.wordpress.com/234/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/felemos.wordpress.com/234/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/felemos.wordpress.com/234/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/felemos.wordpress.com/234/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/felemos.wordpress.com/234/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/felemos.wordpress.com/234/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/felemos.wordpress.com/234/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/felemos.wordpress.com/234/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/felemos.wordpress.com/234/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=234&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Além do Farol tem um Porto &#8211; parte 4</title>
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		<pubDate>Tue, 10 May 2011 02:29:13 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Ir pela luz, enfrentar o escárnio dos marmanjos bons-de-bola, ou ir pela sombra, me render aos meus fantasmas? Imóvel, o sol queimando as costas, eu esperava. Hesitava. Tegiversava. O retrato da dúvida, do medo. Então, eu vi. Bem na minha frente, um caminho paralelo ao caminho do campo de futebol, separado deste por pequenos arbustos. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=229&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ir pela luz, enfrentar o escárnio dos marmanjos bons-de-bola, ou ir pela sombra, me render aos meus fantasmas? Imóvel, o sol queimando as costas, eu esperava. Hesitava. Tegiversava. O retrato da dúvida, do medo. Então, eu vi. Bem na minha frente, um caminho paralelo ao caminho do campo de futebol, separado deste por pequenos arbustos. O caminho do meio. Uma solução de compromisso. Este caminho sempre esteve ali, mas só consegui vê-lo depois de intermináveis minutos. Talvez não intermináveis. Necessários. Não é muitas vezes assim, quando não conseguimos resolver um problema, por exemplo quando não lembramos de um nome, então sem querer nos desligamos da situação e, zás, num passe de mágica a solução aparece à nossa frente?</p>
<p>Será que a solução de compromisso é uma verdadeira solução? Você não enfrenta o problema. Soa covarde. Será que resolve mesmo? Acho que sim, se não não seria uma &#8216;solução&#8217;. Seria um impasse de compromisso. Como a estagflação. Estagnação com inflação. A economia não cresce e os preços sobem. Uma descrição em economês do inferno… Pensando bem, será que tudo na vida precisa ser enfrentado? Será que justamente um dos traços humanos mais fortes não é a capacidade de chegar à acordos? Com a vida, com os desafios, com os inimigos? Com nós mesmos, com o mar? Sei lá, cada um sabe onde aperta o calo, e aguentamos até onde podemos aguentar. </p>
<p>No meu último ano de pânico escolar, eu tinha treze anos e estava na Sétima Série. Durante alguns meses eu sumia na hora do recreio. Me escondia num buraco que achei na cerca-viva de ciprestes da escola. Ficava o recreio inteiro lá, lendo os Almanaques de Ficção Científica da coleção do meu pai. Só saía depois que o sinal tocava. Era uma solução de compromisso, eu evitava o confronto com os bullies. Até o dia em que a gostosa da turma me beijou na boca, de língua, dentro da sala de aula. Enquanto o professor escrevia qualquer coisa no quadro-negro. Aí os valentões pararam de me importunar. Putz, eu lembro do nome dela até hoje. Completo, com os dois sobrenomes. Maria de Fátima etc etc. Amor de pica fica…</p>
<p>Por outro lado, ali naquele hotel eu tinha um não-problema. Não sou mais o garoto de treze anos. Posso mandar um foda-se para quem zoar. Eu fiz minha vida à minha maneira,  se tive que enfrentar perrengues, quem não teve? A adversidade nos faz mais fortes. A água segue seu caminho, se encontra algum obstáculo ela o contorna, ao superá-lo ele já era, vira história. Então, porque naquele momento eu me senti infantil e assustado, com medo de ser eu mesmo e fazer o que eu queria? Tratos à bola, meus caros, tratos à bola… Dei tratos à bola e parei por ali.</p>
<p>Olhei para o jogo. Vi o time do Flávio e do Dinho marcar um gol. Passei despercebido. Não era assim que eu sempre quis passar? Enquanto caminhava pela calçada, me afastando do hotel, entendi que aquele medo que me paralisou é o mesmo medo que sempre me derrotou, antes mesmo de eu começar a jogar. O medo de puxar uma conversa. O medo de levar um fora. O medo de ser elogiado. O medo de fazer a diferença. O medo de acreditar, de dizer ao que vim. O medo de amar. Desculpem-me por existir. Terá sido este o meu lema?</p>
<p>E se não houvesse o caminho do meio? Talvez, na vida, tenhamos que escolher entre a luz e a sombra, sempre. Dá pra seguir em zigue-zague? Hum, levaremos mais tempo para chegar ao destino. Ora, a melhor parte da viagem não é chegar, e sim o caminho. Como percorremos este caminho. Não importa o destino, importa a viagem. Em zigue-zague. Quando velejamos contra o vento, é assim que progredimos. Contra o vento, seguindo em frente em linha reta não chegamos à lugar algum. Contra o vento, seguindo em frente em linha reta andamos pra trás. </p>
<p>Claro, isto são apenas considerações patafísicas. Se você está indo fazer compras em Miami, tanto faz se for de mula ou de TAM. Toma um Frontal e babe a viagem inteira, baby…</p>
<p>Olhei para os dois lados antes de atravessar a rua. Segui para o mar. <em>(continua)</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/felemos.wordpress.com/229/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/felemos.wordpress.com/229/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/felemos.wordpress.com/229/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/felemos.wordpress.com/229/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/felemos.wordpress.com/229/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/felemos.wordpress.com/229/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/felemos.wordpress.com/229/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/felemos.wordpress.com/229/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/felemos.wordpress.com/229/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/felemos.wordpress.com/229/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/felemos.wordpress.com/229/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/felemos.wordpress.com/229/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/felemos.wordpress.com/229/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/felemos.wordpress.com/229/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=229&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Além do Farol tem um Porto &#8211; parte 3</title>
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		<pubDate>Tue, 03 May 2011 02:50:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felemos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Superei a vergonha, passei a colher as flores passeando pelo jardim ao redor da piscina. Fiz um pequeno buquê com quatro espécies diferentes. Faltava eu achar algo para amarrar as flores juntas. Pensei em usar uma tira de folha de coqueiro, procurei o mais próximo. Então vi pela primeira vez o quiosque de massagens. No [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=221&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Superei a vergonha, passei a colher as flores passeando pelo jardim ao redor da piscina. Fiz um pequeno buquê com quatro espécies diferentes. Faltava eu achar algo para amarrar as flores juntas. Pensei em usar uma tira de folha de coqueiro, procurei o mais próximo. Então vi pela primeira vez o quiosque de massagens. No jardim, que lugar bom para uma massagem! Talvez a senhora que estava lá tivesse um barbante ou algo parecido, procurei-a. Mas antes perguntei sobre horários de massagem, ela estava livre.<br />
- &#8220;Primeiro eu tenho que fazer minha oferenda!&#8221;, eu disse.<br />
- &#8220;A senhora não teria um barbante ou algo assim?&#8221;.<br />
Ela olhou meu buquê, pensou um pouco e sorriu:<br />
- &#8220;Não precisa de barbante, usa isso aqui!&#8221;, e arrancou um ramo de uma plantinha que crescia nas paredes do quiosque. Era uma espécie de trepadeira, seus ramos eram como um fio macio, flexível, verde, com folhinhas. Perfeito. Ela tomou o buquê das minhas mãos e fez um belo laço com o ramo. Ficou bonito e 100% natural.<br />
- &#8220;Muito obrigado!&#8221;, eu estava feliz com o meu buquê,  mais um pouco porque uma senhora baiana havia me ajudado.<br />
- &#8220;Qual o seu nome?&#8221;, perguntei.<br />
- &#8220;Maristela!&#8221;<br />
Mar e estrela. Não poderia ser mais apropriado. Não era Patrícia, nem Renata, nem Sheila nem Taiana. Maristela. Um marinheiro se orienta pelas estrelas. Orientação. Se oriente, rapaz. Ao longe eu podia ouvir uma série de fogos de artifício explodindo.<br />
- &#8220;Esses fogos são lá da Colônia, deve ter um barco saindo! Porque você não vai até lá?&#8221;<br />
- &#8220;Colônia?&#8221;<br />
- &#8220;Sim! Depois do Farol de Itapuã tem uma Colônia de Pescadores. De lá sai um barco com as oferendas da comunidade.&#8221;<br />
- &#8220;Quer dizer que eu ponho minha oferenda num barco?&#8221;<br />
- &#8220;Sim, eles levam as oferendas de todo o pessoal e as deixam em alto mar. É muito bonito!&#8221;, e me olhou com olhos pacíficos.</p>
<p>Retracei minha rota. Eu havia planejado ir até a praia, fazer minhas preces e deitar o buquê à água. Como bom complicador que sou, durante uns bons momentos fiquei imaginando alguma espécie de artefato que pudesse carregar minha oferenda para além da arrebentação. Depois de considerar amarrar o buquê à um saco cheio de bolinhas de ping-pong (facilmente obtidas no pé de bolinhas de ping-pong que crescia além-rio), ou fazer uma balsa com uma sandália havaiana e uma folha de bananeira, enfim, idéias práticas e razoáveis, ir até a Colônia deixar minha oferenda dentro de um barco não me pareceu de todo mal. De súbito me empolguei com a tradição! Eu, que vivo errando mundo à fora, participaria de um ritual que devia existir há séculos. Estar na Bahia no dia de Iemanjá, fazer a oferenda na melhor tradição baiana… pronto, era o que eu precisava.</p>
<p>Pus-me à caminho. Dei dois passos e … parei nos meus calcanhares. Meu caminho para a praia contemplava duas opções: uma, maior, passava pela recepção do hotel. O caminho óbvio, direto, passava pela beira do campo de futebol. Onde alguns companheiros da banda, e outros, prestavam sua homenagem ao nobre esporte bretão tão popular nestas terras, o ludopédio. Pronto, pensei, os caras se esfalfando atrás duma esfera saltitante, eu passando ao lado com um buquê na mão. Que vergonha. De novo. Imagina, vão me chamar de viadinho… Então de repente eu tinha 10 anos de idade e estava na Escola-Classe 407/408 Norte, morrendo de medo dos bullies que enchiam meu saco, tentando ser o garoto-invisível, olhando para baixo, andando junto à parede. Dei dois passos em direção à recepção, cabisbaixo, e … parei de novo.</p>
<p>&#8220;Caraca, como você é covarde!&#8221;, eu pensei. &#8220;Frouxo, maricas…&#8221; O suor começou a escorrer pelas minhas têmporas. Olhava o futebol com inveja, nunca havia aprendido à jogar, sempre beque ou goleiro, sempre o último à ser escolhido no par-ou-ímpar que definia os times, ninguém me queria no seu time, um peso morto, um pereba. <em>(continua)</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/felemos.wordpress.com/221/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/felemos.wordpress.com/221/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/felemos.wordpress.com/221/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/felemos.wordpress.com/221/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/felemos.wordpress.com/221/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/felemos.wordpress.com/221/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/felemos.wordpress.com/221/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/felemos.wordpress.com/221/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/felemos.wordpress.com/221/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/felemos.wordpress.com/221/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/felemos.wordpress.com/221/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/felemos.wordpress.com/221/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/felemos.wordpress.com/221/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/felemos.wordpress.com/221/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=221&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Além do Farol tem um Porto &#8211; parte 2</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Apr 2011 18:07:52 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O motivo verdadeiro de eu ter decidido ir à igreja naquele sábado é que meu melhor amigo havia me convencido à ir. Eu devia ter uns sete anos. A família dele, provavelmente católica, devia ter achado que era chegada a hora do Paulinho se instruir nos assuntos do Além, e o matriculou no aborrecimento. Ele, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=218&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O motivo verdadeiro de eu ter decidido ir à igreja naquele sábado é que meu melhor amigo havia me convencido à ir. Eu devia ter uns sete anos. A família dele, provavelmente católica, devia ter achado que era chegada a hora do Paulinho se instruir nos assuntos do Além, e o matriculou no aborrecimento. Ele, para não ir sozinho, me chamou. Quando chegamos lá, sentamos na roda e começamos a ouvir o padre falar. Acho que demorou um minuto. Até eu perceber que estava não numa igreja, mas no maior playground para um garoto da minha idade, em Brasília: um prédio em construção. </p>
<p>Olhei pro meu amigo, ele não parava quieto. Nem precisava dizer. As palavras do religioso eram completamente desprovidas de sentido, enquanto que aquele prédio era real, com passagens secretas, salas escondidas, ferramentas abandonadas e restos de material de construção. Escadas, rampas, subterrâneos. Um mundo desconhecido esperando os verdadeiros aventureiros desvendarem os seus segredos</p>
<p>Começamos a ficar realmente inquietos. A gente não parava de se mexer, sentava de um lado, do outro, cruzava os braços, descruzava, esticava as pernas, abraçava-as em seguida, então esticava de novo e se apoiava nas palmas das mãos, os braços esticados às costas, então rapidamente, num desafio supremo, se apoiava nos cotovelos, quase deitando no chão, e então se virava para um lado, dobrava os joelhos, levantava de novo, então olhava para o cara em pé falando, ele nos fuzilava com o olhar,  continuava a lenga-lenga, então a gente cochichava, começava tudo de novo, cruza os braços, dá um bocejo, descruza e…:<br />
- Meninos… Uma voz tão controlada que deixava passar nas entrelinhas imagens de bordoadas e submissão, um leve tremor na mão, um músculo tensionando involuntariamente no rosto, um volume de voz tão baixo que gritava no siêncio sepulcral daquela sala oca, as palavras escapando por pouco, aflitas, agonizantes, sibilando entre dentes rangendo:<br />
- Vocês querem ir brincar?… Duas bolas de saliva em cada canto da boca, os olhos tremendo em suas órbitas.</p>
<p>Duas cabecinhas sacudiram pra frente e para trás. De um pulo saimos correndo, entramos por uma porta escura no fundo da sala e pronto, éramos 007 e Indiana Jones em busca do Sagrado Prego de Ouro, perdido há tempos imemoriais no Castelo Mal Ajambrado do satânico, oops, não, do benévolo Sr. Coroinha. </p>
<p>Algumas vezes passamos pela tal porta, enquanto corríamos livres, nos esbaldando no puxadinho do Éden. Olhávamos rapidamente para dentro da sala, saíamos correndo, escapando antes de ouvir o fatídico &#8211; Meninos, voltem aqui! &#8211; Eu via aquele grupo de pessoas sentado no chão, ouvindo aquele ser de outro planeta falar de um assunto metafísico, patafísico, e no meu raciocínio de sete anos não podia imaginar nada mais chato no mundo.</p>
<p>Hoje não sou mais um ateu, embora com certeza não seja católico nem &#8216;crente&#8217;. Existe algo do lado de lá, não é um velhinho de barbas brancas, esse é o Papai Noel. Sei do poder da prece, sei que as coincidências são um pouco mais do que soluços na Matrix. Este blog é sobre uma dessas &#8216;coincidências&#8217;. <em>(continua)</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/felemos.wordpress.com/218/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/felemos.wordpress.com/218/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/felemos.wordpress.com/218/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/felemos.wordpress.com/218/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/felemos.wordpress.com/218/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/felemos.wordpress.com/218/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/felemos.wordpress.com/218/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/felemos.wordpress.com/218/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/felemos.wordpress.com/218/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/felemos.wordpress.com/218/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/felemos.wordpress.com/218/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/felemos.wordpress.com/218/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/felemos.wordpress.com/218/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/felemos.wordpress.com/218/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=218&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Além do Farol tem um Porto &#8211; parte 1</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Apr 2011 04:15:56 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Eram quatro horas da tarde e eu ainda não havia ido fazer minha oferenda à Iemanjá. Salvador, Bahia, praia de Itapuã, dia 02 de Fevereiro. Eu simplesmente precisava ir. Durante o almoço pensei em fazer minha oferenda no laguinho atrás do restaurante, afinal ela é a rainha de todas as águas, mas a idéia não [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=207&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eram quatro horas da tarde e eu ainda não havia ido fazer minha oferenda à Iemanjá. Salvador, Bahia, praia de Itapuã, dia 02 de Fevereiro. Eu simplesmente precisava ir.</p>
<p>Durante o almoço pensei em fazer minha oferenda no laguinho atrás do restaurante, afinal ela é a rainha de todas as águas, mas a idéia não vingou, ainda bem. Preguiça não combina com devoção.</p>
<p>Pensei em comprar um buquê de flores,  não havia floristas no hotel. Pegar um táxi até o Rio Vermelho, ou ao comércio mais próximo, hum… Olhei ao redor, havia flores de várias espécies no jardim do hotel. Faria eu o meu buquê, com as flores que eu próprio colheria.</p>
<p>Guardei meu celular e o livro que eu estava lendo no quarto. Iria para a praia apenas com a roupa do corpo. Voltei ao jardim, comecei a colher flores. Me senti embaraçado, com vergonha.  Olhei para mim mesmo de fora, como se eu estivesse me observando de um outro eu. Fiquei constrangido com a minha figura, me senti patético. Matutei um pouco esses pensamentos. Eu tenho que dar satisfação à alguém? Porque eu ainda me aborreço quando reconheço que existe um lado espiritual na minha vida? Naquele momento, colher flores era uma demonstração de fé. Eu tenho um grande problema em falar sobre ou demonstrar fé. Vem da infância. Nada que uma educação comunista não explique.</p>
<p>No colégio, eu devia estar na terceira ou quarta série, em uma conversa com duas garotas. Uma então falou que era católica, a outra disse que era crente &#8211; devia ser o correspondente à ser o que evangélico é hoje &#8211; Comecei a suar, antecipando a direção que a conversa ia tomar. Dito e feito. Uma delas se virou para mim e perguntou:<br />
- E vocé, o que que é, é católico ou crente?</p>
<p>Fiquei mudo e envergonhado. Eu não era nada. Nunca havia tido educação religiosa. Meu pai, um comunista bonzinho, não comeu criancinhas, trouxe o materialismo dialético para dentro de casa. Não havia espaço para enrolação de deus, anjo, santo, diabo. Terra do Sol havia… Minha mãe havia tido uma educação católica, mas acho que os dois, como bons pais progressistas, devem ter decidido que seus filhos escolheriam ter uma religião, ou não, quando entendessem do assunto. Nada de lavagem cerebral nas crianças! A religião é o ópio do povo! </p>
<p>Talvez eles pudessem ter conversado mais sobre o assunto, para eu saber que eu era um ateu e que não havia nada de errado com isso. Talvez tenham até tentado, mas não só ouvia o que eu queria ouvir, eu? Poderia eu ter perguntado, investigado? Eu era um menino que chegava quieto e saía calado. Assim foi.</p>
<p>Talvez, contudo, a história tenha começado bem antes. Um dia eu cheguei em casa e disse que queria ir pra aula de catecismo. Meus pais me olharam de um jeito estranho, eu nunca tinha manifestado interesse pelo assunto. A aula seria sábado de manhã, numa igreja em construção perto da Colina, a Igreja do Verbo Divino. Sobre esse singelo nome, demorou uma porrada de tempo até eu entender que Verbo Divino queria dizer a palavra do divino Deus. </p>
<p>A igreja ficava na 609 Norte, à noroeste da Colina. Debaixo do bloco A, olhando para o Lago, a igreja ficava à um quilômetro, na direção da orelha esquerda. Posição oito horas no relógio, sendo doze para onde você está olhando. Na direção do por do sol. Muito importante.</p>
<p>O caminho até lá era por uma trilha. Não havia outras construções entre a Colina e a igreja, apenas o cerrado. Um campo de mato salpicado de árvores baixas e tortas. E muitos cupins. Não o inseto, mas suas casas, os cupinzais. Montinhos de terra dura como pau, verrugas de barro seco na pele do planalto. A trilha por onde passávamos, caminho tortuoso e estreito, entre as moitas de capim-gordura, feito por milhares de passos seguindo a mesma direção, sempre pisando no mesmo lugar, durante anos. Os caminhos de rato. <em>(continua)</em></p>
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		<title>Canibais sob cannabis &#8211; final</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Apr 2011 02:35:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felemos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O mundo exterior é sobressalto, desafio, frustração e, muito de vez em quando, recompensa. Construído por rotinas obtusas às quais temos que nos adaptar, a vida inteira. Fora do nosso controle, por mais que nos julguemos donos dos nossos narizes, senhores dos nossos destinos. Quando um artista, ou qualquer um, cria algo novo, genuíno, original, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=felemos.wordpress.com&amp;blog=5199505&amp;post=201&amp;subd=felemos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O mundo exterior é sobressalto, desafio, frustração e, muito de vez em quando, recompensa. Construído por rotinas obtusas às quais temos que nos adaptar, a vida inteira. Fora do nosso controle, por mais que nos julguemos donos dos nossos narizes, senhores dos nossos destinos.</p>
<p>Quando um artista, ou qualquer um, cria algo novo, genuíno, original, ele abre um caminho, um vetor, propõe uma indagação que põe em cheque nossas crenças e valores. Essa alteração na ordem do sistema, esse vírus cultural, essa &#8216;caixinha de surpresas&#8217; conforme William Gibson num de seus romances, sugere que o mundo pode ser visto, e porque não ouvido, provado, sentido, vivido, de uma maneira diferente. As pessoas gostam de mudanças? Você tomaria a pílula verde ou a vermelha?</p>
<p>Embora procurem a normalidade, as pessoas anseiam por qualquer coisa que as tire do abismo da rotina e da falta de sentido da vida. Não é por isso a nossa curiosidade mórbida por acidentes e tragédias? Nossa necessidade de ter uma paixão, qualquer uma? A Paixão de Cristo?</p>
<p>Lutamos por uma vida organizada, ordeira, um lar-doce-lar onde a monotonia, a segurança e a repetição são a suprema conquista. Mas quando sentimos por um instante o perigo do imprevisível… quando nos jogamos na balada… quando nos perdemos nos carinhos de um novo amor… quando pisamos aquela praia deserta… quando ouvimos aquela música… aceleramos e não pensamos nas consequências. Viver sem paixão é o limbo.</p>
<p>Temos duas ferramentas à disposição, que podemos usar para mudar o mundo e à nós mesmos. Uma é a criatividade, que vem da observação, educação e determinação, com o auxílio luxouso da inspiração, do insight. A outra é a violência, que vem do poder, corrupção e mentiras, e que depende basicamente da ignorância e do medo. Dois lados da mesma moeda.  Qual você escolhe? Qual mundo você escolhe? </p>
<p>Só vou depor minhas armas/Por alguém que valha a pena lutar</p>
<p>Divaguei. O show do Phoenix no Chevrolet Hall foi moderno, envolvente, carismático. A luz, antes de ter mil parafernálias, tinha criatividade. Se variedade é o tempero da vida, criatividade é usar o mesmo tempero de muitas outras formas. As canções surpreendem nos arranjos, fogem do convencional. Gostei do baterista, com suas levadas de tambores, e dos diálogos e contra-pontos entre as guitarras. </p>
<p>Lá pelas tantas o vocalista resolveu se jogar à platéia. Ignorou solenemente a pista premium, ali um estabaco no concreto seria certo o seu destino, foi direto para a pista dos comuns, se equilibrando numa grade que as separava da arquibancada lateral. Parou à poucos metros da platéia, que urrava em antecipação. Talvez o cabo do microfone tivesse esticado até o limite, ou talvez ele estivesse longe demais do palco, fora do alcance dos seus seguranças. Talvez um leve temor à respeito de que tipo de tratamento que nós, índios sulamericanos subdesenvolvidos, canibais sob cannabis (bom nome para uma banda!), dispensaríamos ao ilustre visitante do Velho Mundo… Então… jogou o microfone para a platéia. O dono do equipamento de som deve ter urrado de raiva.</p>
<p>A companhia dos meus amigos mineiros, o casal Cris e Silvana, e seu amigo, Marcelo Diogo, foi o ponto alto da noite. Além dos bons papos e da boa companhia, me trataram como um rei. A pista premium, não confundir com pista expremium, tinha cerveja grátis. Meus anfitriões não deixavam meu copo esvaziar. Nem deixavam eu ir pegar no balcão!  Chiques no último. Quando o líquido começava a esquentar, lá vinham eles com um copo novinho, cheinho, geladinho. Precisa dizer como fiquei? Depois do show fomos comer uma pizza maravilhosa, num lugar bonito, com pessoas bonitas, cujo nome eu não faço a menor idéia. Num rasgo de bom-senso eu pedi uma margarita, então… perda total. </p>
<p>Chegar bêbado em hoteis acontece de vez em quando. As mais engraçadas são quando passamos a noite enchendo a cara na bumba, e amanhecemos em alguma bucólica cidade do interior completamente chapados. Deve ser um momento digamos, estimulante, para as pessoas de bem, recém-acordadas, de banho tomado, cheirosinhas, prontas para mais um fulgurante dia, ver aquele bando de bardos briacos (outro bom nome!) invadir seus pacatos lobbies.</p>
<p>Acordei ainda com as lentes de contato. Pelo menos não sentia nenhuma dor em local de acesso restrito… Liguei para o Marcelo, com medo de ter feito alguma besteira ou dito alguma grosseria, mas, espero que não por cortesia, ele disse que tudo correu bem, eles me largaram no hotel e deram risada enquanto eu cambaleava em direção ao elevador. Chique no último?</p>
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