O sonho do passarinho

By felemos

Eu desci do meu apartamento, mas não era o apê de São Paulo. Parecia uma cidade do exterior, Nova Iorque, o Brooklin especificamente, me vem à mente agora. Havia na calçada na frente do prédio uma espécie de cabine, medindo mais ou menos um metro de largura por três de comprimento. Ela tinha duas portas, uma em cada extremidade, de lados opostos. Uma porta, a que não era a minha, fazia frente à calçada, a minha fazia frente à rua. A cabine era de vidro e perfis de metal.

Abri minha porta, tinha um cadeado. Me lembro que tive dificuldades para encaixar a chave. No chão havia um pequeno canteiro, mas não havia nada plantado lá. Comecei a cavar, me parece agora procurando a minha agenda, mas encontrei uma caixinha metálica. Era uma espécie de cápsula do tempo, onde eu havia guardado coisas para serem encontradas no futuro. Mas era estranho, porque eu sabia que havia enterrado aquele ‘tesouro’ ali recentemente, e não deveria estar mexendo nele. Tirei da terra duas caixas se não me engano, uma era redonda e a outra retangular. Coloquei-as num banquinho que estava ao meu lado, fora da cabine. Me preocupei com as pessoas que passavam, elas estavam vendo eu desenterrando minhas caixas, descobrindo meu esconderijo secreto.

Olhei para a outra extremidade da cabine, a porta ali estava aberta, me pareceu até que não havia porta. Uma pessoa que entrasse por ali poderia chegar até o meu canto. Senti que estaria tudo bem se eu trancasse a minha porta. Quando terminei de mexer com a terra, fechei a porta e tentei passar o cadeado. Mas os furos por onde o cadeado deveria passar não se encaixavam. Enquanto eu tentava ajustar a porta, a cabine começou a se mover, como se tivesse rodas, e seguiu pela calçada. Isto não me pareceu estranho. Eu fui andando junto à ela, tentando trancar a porta, e deixei meus tesouros para trás. Isto durou mais ou menos um quarteirão, até que finalmente tranquei a porta. A cabine parou de se mover. Percebi então que o cadeado, agora uma espécie de cabo, estava muito frágil, e que qualquer um conseguiria arrombá-lo. Havia apenas alguns poucos fios do cabo de aço inteiros, e um alicate de corte facilmente romperia o cabo.

Apareceu então o dono da outra metade da cabine, que era o porteiro do prédio onde eu morei antes de me mudar para a minha residência atual, há três anos atrás. Ele aparentemente usava a cabine para guardar seu material de limpeza, como vassouras, rodos e baldes. Ele olhou o cabo quase rompido e disse para eu não me preocupar, porque ele ia dar um jeito. Era muito simples, ele disse. Ele compraria uma tranca nova, e prenderia uma parte dela no ‘morto’ do prédio. Ele insistiu nisso, falou duas vezes essa palavra. Então me explicou o que era o ‘morto’ de um prédio, eu nunca tinha ouvido essa expressão antes. Estávamos agora no telhado do prédio na frente do qual a cabine havia parado. Eu podia ver a rua lá embaixo, os telhados dos prédios da cidade se extendendo ao horizonte. Ele apontou para o prédio em frente. Eu podia ver as janelas e os batentes delas. Uma parte dos batentes ultrapassava a linha da parede. Pronto, essa protuberância era o ‘morto’ de um prédio. Fazia sentido, de algum modo.

Então, no teto da cabine, que agora também estava no telhado, eu reparei num passarinho muito pequeno. Deveria ter o tamanho de um dedo polegar. Era muito frágil e delicado. Era um passarinho completo, com penas, bico comprido e asas. Pensando agora, parecia o passarinho que havia num brinquedo que eu adorava quando criança, que consistia num fio de arame rígido preso à uma base. Neste arame de mais ou menos trinta centímetros corria uma bolinha de madeira com um furo no meio. Preso à bolinha por uma pequena mola havia o passarinho. Quando leváva-mos o passarinho até o topo do arame e o soltáva-mos, ele, ao descer, fazia o movimento de bicar, por causa do atrito da bolinha com o arame. Eu e meus irmãos adoráva-mos este brinquedo, tivemos vários. Era artesanal, normalmente compráva-mos quando visitáva-mos a Feira Hippie de Brasília, hoje Feira de Artesanato.

Aquele passarinho parecia frágil demais para estar vivo. Pensei que se ele não conseguisse comida morreria logo, pensei como ele conseguiria fazer isso, parecia impossível ele comer alguma coisa. Ele não se assustou com a nossa presença. Então de repente ele alçou vôo, e me surprendeu. No céu à minha frente ele voou para a esquerda, em direção ao lugar de onde eu tinha saído. Um outro se juntou a ele, agora eram dois passarinhos. Então algo mais estranho aconteceu: eles viraram cartuns, desenhos de passarinhos, como o Woodstock, aquele amigo do Snoopy. Como desenhos eles continuaram voando, eu acompanhei seu vôo até eles pousarem numa espécie de torre em cima do que parecia ser o meu prédio.

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